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terça-feira, julho 22, 2008

entre o riso e as lágrimas

nós nunca deixamos de ser fundamentalmente novos, condenados a ter vários rostos e incapazes de fazer coincidir a nossa intenção com o olhar dos outros. o mundo é uma feira de mal-entendidos que alimenta todas as anedotas e todas as tragédias. a tragédia é ontologicamente igual à comédia - entre o riso e as lágrimas, entre o bem e o mal, não há senão uma cómoda diferença de perspectiva. e a perspectiva foi um mecanismo de defesa do homem face ao absurdo da existência.

inês pedrosa, in a perfeição da clarabóia que falta
(introdução à edição do círculo de leitores de o livro do riso e do esquecimento de milan kundera)

sábado, setembro 29, 2007

pessoas que eu gostava de conhecer pessoalmente #1 | inês pedrosa

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portugal
"portugal é um país maravilhoso onde as pessoas passam a vida a queixar-se.
do mel e vinagre do fado eu gosto. gosto dessa angústia profunda. não acho que o país esteja estagnado, acho que as pessoas impedem o país de andar para a frente."


utopia
"a utopia em si assusta-me e nunca vi dar bons resultados. as minhas utopias são quotidianas, é trabalhar todos os dias. a minha utopia principal é a que tinha o padre antónio vieira, é que a palavra possa movimentar a cabeça das pessoas e fazê-las agir de outra maneira. acredito no poder transfigurador da palavra, transfigurou-me aquilo que li e aquilo que leio, portanto pode transfigurar outros."


amizade
"o mundo baseia-se hoje nas nossas escolhas afectivas e nós temos esta ideia que a amizade é uma coisa sólida, é o que nos vai aguentar quando as outras escolhas falharem. temos o fantasma que certas expressões de afecto não são próprias para os amigos. a amizade também tem uma erótica muito particular. supostamente é uma relação mais duradoura, porque não tem o desgaste do desejo."


desejo
"o desejo é o mais parecido com a eternidade, mas é o menos eterno porque não tem ontem nem amanhã."


liberdade
"quando aparece uma dirigente regional a dizer que se pode criticar o primeiro-ministro desde que seja em casa, isso era no tempo do marcelo caetano. o país interior está muito estatizado. as pessoas não percebem que cada vez que se escondem estão a acabar com mais um bocadinho de liberdade."


dor
"quando tenho uma dor muito grande nunca a vivo até ao fim porque começo a pensar que vou transformar aquilo. lembro-me da morte do meu pai, que foi uma coisa absurda de dor. e dizia para mim mesma, agora já sabes como é, isto é importante para o teu conhecimento da natureza humana. quem não tem uma arte, o que é que faz à dor? eu sei sempre o que lhe faço, transformo em escrita."



há pessoas que dizem coisas com as quais concordamos absolutamente, ou que, não concordando, nos fascinam. são essas as pessoas que eu gostava de conhecer pessoalmente. para inaugurar esta rúbrica (que pretensão!) no und3rblog, inês pedrosa, em entrevista à revista pública no dia 23 de setembro. nunca li nada dela, mas isso é uma falha que se pode corrigir facilmente.