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quinta-feira, junho 05, 2008

excertos dos cadernos de viagem do famoso explorador nélio na sua expedição a palma de mallorca #6

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sábado, 24 de maio de 2008


os mastros dos grandes veleiros estão iluminados como se fossem os pináculos de uma grande catedral erguida em honra do deus neptuno. tal como o mar, esta é uma catedral em permanente mutação. de dia para dia as colunas mudam, umas desaparecem durante o dia, afastam-se no horizonte, novas chegam para renovar a arquitectura do edifício. tirando as colunas, todo o corpo da catedral é etéreo, imaginário, volátil, como a vida.


fotografia de nélio filipe

quarta-feira, janeiro 16, 2008

palavras

palavras. apetecia-me encher este blog de palavras. as palavras com que penso, as palavras com que me rio de um mundo que não consigo levar a sério para não transportar aos ombros todo o peso que uma reflexão séria acarretaria. uma reflexão sobre o homem, esse bicho maldito que recusa a sua condição de bicho, maravilha e aberração. temos que ser assim? cegos, não enxergando um palmo à frente do nosso umbigo?
palavras. apetecia-me encher este blog com todos os pensamentos que me ocorrem nos momentos mais inesperados do dia. mesmo os mais inconfessáveis, para lavar os cantos mais recondidos do meu eu. os mais calorosos, para gritar ao mundo que sou ser sensível e que canto, que rio, me maravilho, mas também choro. abrir as mãos em torrente e deixar escorrer sobre o teclado toda a complexidade que cabe dentro de um ser humano, que se preocupa em ser e manter-se apenas, também e principalmente isso: humano.
mas a blogosfera é espaço de bicho-homem, com todas as vicissitudes e toda a feira de vaidades que a criatura sempre arrasta atrás de si. e temos que compor a personagem que por
aqui habita. não se anda nu na blogosfera, como não se anda nu fora dela. ensaiam-se poses, práticas, defendem-se imagens, retocam-se posturas. mesmo assim, apetecia-me encher este blog de palavras.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

somos uma espécie admirável

sempre vivi este dilema entre o encanto e o desencanto com o bicho-homem, a sua essência, o seu ser biológico, capaz do melhor e do pior. acabámos por criar complexas redes de organização em grupo, tribos que se entrelaçam com outras tribos, que partilham o habitat embora não partilhem muitos dos comportamentos. uma verdadeira inovação biológica. tão complexa é a nossa organização em grupos, e tão interdependente, que os grandes agrupamentos humanos contêm verdadeiras tensões em relação ao rumo do todo e ao (des)equilíbrio de forças entre tendências opostas ou transversais. o sistema, no fundo, somos nós todos, ninguém o controla, ninguém o define. segue o percurso resultante da soma de todos os vectores individuais. pode parecer estranho, mas isto vem a propósito do natal. ou melhor será dizer: isto vem também a propósito do natal. o mesmo encanto e o mesmo desencanto que referi acima. talvez poucos pensem nisso, mas esta é uma época de verdade, com inspiração nos sentimentos mais nobres e mais elevados de que somos capazes enquanto espécie. jesus, o homem que realmente existiu, que nasceu mais coisa menos coisa há pouco mais de dois mil anos, era um homem bom, justo, verdadeiro, conhecedor da nossa essência. sabia que para continuarmos a viver em grupo temos que domar o predador que há em nós. e nós somos uma espécie auto-predatória, uma das únicas de que há registo. jesus, dizia eu, passou à história como símbolo dos sentimentos mais puros e mais nobres de que somos capazes. e das acções também. é isto que deviamos estar a celebrar agora. o nosso lado mais luminoso, a inspiração que faz com que persigamos ideais de justeza, de solidariedade, de futuro partilhado. hoje não me vou queixar de todos os absurdos da realidade e não vou dizer o que está mal nesta maneira que engendrámos para festejar o natal. nem vou protestar contra os contornos quase pornográficos do apelo ao consumo desenfreado. quero continuar a sentir a magia infantil que olha para as luzes espalhadas pelas ruas das cidades com fascínio absoluto. somos, realmente, uma espécie admirável.

domingo, novembro 18, 2007

sms

se há coisa que me dá gozo na vida são os processos dinâmicos e as intercepções desses processos dinâmicos, que são o que fazem, afinal, o nosso mundo relacional. somos bichinhos que gostam de trocar. coisas, objectos, carinho, afecto.

domingo, outubro 21, 2007

a fragilidade da (nossa) existência

a sequência final da fabulosa série "6 feet under". muito se escreveu ao longo de toda a história da humanidade sobre a brevidade da vida, e não serei eu a acrescentar algo de substantivo. "6 feet under" sempre foi uma série que me reconciliou com a vida, por muito estranhos que fossem os acontecimentos que eu estivesse a viver no meu dia a dia. e, como em todas as vidas, por vezes parece-me que a realidade ultrapassa largamente a ficção. nem sempre estamos dispostos a lidar com, e a encarar de frente, a fragilidade da (nossa) existência, mas essa tomada de consciência ajuda-nos a viver os períodos mais "estranhos" das nossas vidas com um toque de relatividade e de desprendimento. como se olhássemos de fora para dentro.



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domingo, outubro 07, 2007

janis e inês

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quis o acaso que recentemente tenha andado às voltas com duas "personagens" femininas que aparentemente nada têm em comum: inês de castro, através da leitura do romance histórico que maria pilar queralt del hierro escreveu, e janis joplin, através da audição duma colectânea comprada ao desbarato numa grande superfície. separadas pelo tempo, duas mulheres que viveram vidas em pleno, duas personalidades fortes e determinadas. têm em comum o fim trágico, uma às mãos dos esbirros de d. afonso IV, a outra às mãos de uma overdose de heroína. perduraram as duas para além do seu tempo, uma pela voz única, a outra pelo amor que a uniu a d. pedro de portugal. das duas perdura também o fim prematuro em tom de tragédia, devoradas pelas sociedades que as rodearam. mas se os fins foram trágicos, as existências foram gloriosas, pessoas que se cumpriram e viveram intensamente. o mesmo não se pode dizer de muitos de nós, nesta sociedade actual de vidas cinzentas e pouco ou nada cumpridas. rainhas por um dia ou escravas toda a vida, reis por um dia ou escravos toda a vida, o velho dilema existêncial.

terça-feira, setembro 04, 2007

perguntas de bolso #4 e #5

ainda estamos na silly season ou já passámos à rentrée?

e porque é que para a silly season empregamos uma expressão anglófona e para a rentrée utilizamos um galicismo?

sexta-feira, julho 20, 2007

sobre a especialização

admiro profundamente as pessoas especializadas. em qualquer assunto. a começar pelas pessoas especializadas em futebol, que conseguem ter conversas do tipo lembras-te daquele golo em 1989 na 4ª jornada da liga (perdão, nessa altura era apenas a 1ª divisão). também admiro os especializados em cinema, que sabem de cor todos os filmes realizados pelo visconti ou pelo hitchcock, os especializados em literatura, em filosofia, em banda desenhada, música, jardinagem, política, por aí a fora. gosto principalmente daquele arquear de sobrolho e olhar reprovador quando confessamos que não, não nos lembramos daquele golo, não vimos aquele filme, nunca lemos o ulisses do joyce, não sabemos de cor nenhuma citação do nietzche, não sabemos a ordem cronológica da obra de hergé nem dos álbuns dos u2, não reconhecemos um pelargonium ou não nos lembramos de quantos cargos já ocupou o santana lopes. nesse momento estamos fora. a questão é que eu gosto de futebol, de cinema, gosto de ler, gosto de filosofia, adoro música e banda desenhada, gosto de jardinar e de política, mas nunca me consegui especializar. sei lá, a vida é tão diversificada, a actividade criativa do bicho-homem é tão vasta e as solicitações são tantas que, quando começo a mergulhar num universo, há logo outro que me fascina e que me impede de proceder à tal especialização.

quinta-feira, julho 05, 2007

(don't) analyse

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por vezes há músicas que se colam aos nossos dias e que não param de rodar no leitor. por vezes são músicas acabadas de descobrir, outras vezes são músicas que quase se poderia dizer virem ter conosco, quererem habitar o mesmo espaço. estão em sintonia com o nosso interior, ou pelo menos com parte do nosso interior. analyse do thom yorke, colou-se-me nos últimos dias. este quase lamento grandiloquente, este arrastar das palavras, este "there's no time to analyse". aqui descubro serenidade, uma sensação de sintonia, o belo e o sublime.


passo de lado o "they get you down", deixo para adolescentes fascinados com o lado negro da existência, poderia dizer que já dei para essa causa. there's no time to analyse, and there's no will, acrescentaria. quem gosta da vida analisada, definida, com contornos tipo lentes essilor? precisamos sempre do desconhecido, até em nós próprios. gosto deste piano que sem se impor sustenta toda a música. gosto desta batida coração pulsátil, gosto desta electrónica humanizada. gosto da côr azul que se desprende destes sons.

( desenhos de stanley donwood para a capa de the eraser)

domingo, junho 17, 2007

poder criativo

nenhuma outra característica do bicho-homem me interessa tanto como o seu poder criativo. não será pois de admirar que os meus "heróis" e as minhas referências como ser humano tenham sido sempre artistas ou cientistas. interessa-me muito mais a história das ciências e das artes do que a perspectiva histórica geopolítica. não hesito nem um momento antes de afirmar que galileu ou leonardo da vinci, picasso ou parteur são figuras de muito maior relevo do que carlos v, napoleão, winston churchill ou de gaulle. leni riefenstahl muito maior do que hitler. da mesma maneira, fazer ritmos com bolas de basketball afigura-se-me muito mais interessante e importante do que presidir a uma assembleia geral das nações unidas ou à reunião do conselho de administração de uma grande multinacional. tenho o mais absoluto desprezo pelo exercício do poder e por quem faz dele um objectivo, um modo de vida. é o poder criativo que faz realmente a humanidade avançar.

quinta-feira, junho 07, 2007

forma e conteúdo

embora os meus olhos sejam
os mais pequenos do mundo
o que importa é que eles vejam
o que os homens são no fundo
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antónio aleixo
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antónio aleixo mal sabia ler e escrever, mas isso não o impediu de ter uma visão crítica dos homens e do mundo. vivemos numa sociedade que confunde frequentemente formação académica com sabedoria e inteligência. é verdade que ler, estudar, a própria vida académica com toda a riqueza de vivências que proporciona, estimulam os neurónios, mas saber ultrapassar as exigências da formação secundária ou universitária não é de maneira nenhuma sinónimo de inteligência ou sabedoria. alguns dos meus melhores amigos, com quem consigo ter conversas verdadeiramente interessantes, não têm grande formação escolar. alguns dos meus colegas, com formação superior, são das pessoas menos cultas e menos sábias que conheço, no entanto em termos sociais consideram-se bem acima de quem não tem um curso universitário. nada disto me admira, numa sociedade que valoriza mais a forma do que o conteúdo. a cultura e a sabedoria nada têm a ver com o grau de formação académico. é algo que é inerente ao indivíduo, tem a ver com a capacidade de observação, de questionar, de pensar e chegar a conclusões próprias. tem a ver com a curiosidade, com o interesse por si próprio e por aquilo que nos rodeia. muitas pessoas nunca questionam, bebem a cartilha social por inteiro, de um só gole, como se fosse a única perspectiva possível. na verdade nada aprenderam, apenas decoraram. é que há uma diferença entre aprender e decorar. grande, muito grande.

sábado, junho 02, 2007

inquietação

acabo de reparar que o nº de posts com a etiqueta "portugueses" igualou o nº de posts com a etiqueta "música". sendo a música uma das minhas paixões, isto inquieta-me. quer dizer que ando novamente demasiado ligado ao mundo comezinho, a reflectir sobre as imperfeições do bicho-homem e sobre a desorganização deste país, coisa que, como hábito de higiene de vida, evito ao máximo. já reflecti, já questionei, já desesperei o suficiente para uma vida inteira, não vale a pena perder mais tempo com isso. o mundo é, a sociedade é, e o meu poder de intervenção é diminuto, há muitos anos que passei do "eu quero mudar o mundo" para o "eu quero que o mundo não me mude". isto digo eu para mim próprio, mas os absurdos da realidade levam-me sempre de volta à indignação, à ironia, ao não há pachorra.

terça-feira, maio 22, 2007

slide & splash

resta pois, a quem por força da racionalidade e da evidência mais profunda desacreditou de tudo, dos homens e da sua sociedade, viver estoicamente o passar dos dias, usufruindo, com plena consciência da ilusão que impõe a si próprio, os momentos de felicidade que lhe advêm das sensações e da observação das cores, dos sons, das formas, dos gostos e dos cheiros que compõem o quotidiano. seguindo a corrente da entropia. esta atitude nada tem de trágico, apenas lhe permite a fruição pura e simples do facto de estar vivo.

terça-feira, maio 08, 2007

em contraciclo

sinto-me em contraciclo com as tendências actuais da política, é sabido que a história se processa em movimentos pendulares. a vitória de sarkosy é uma vitória das técnicas de manipulação de massas e da propaganda sobre a comunicação, como alguém escreveu, mas é também a vitória dos que acreditam que o exercício do poder deve ser musculado. pessoalmente, não gosto e acho que não preciso que me digam o que devo fazer, que me imponham autoridade e moral. a autoridade só é necessária quando alguém se recusa a dar o seu contributo para o todo que constitui uma sociedade, e a moral, bem, essa, cada um tem a sua, desde que não invada terrenos alheios. não sou francês, mas a tendência prolifera um pouco por toda a união europeia. nicolas sarkosy é um confesso admirador das reformas levadas a cabo pelo governo português, embora a esfera ideológica (se é que isso ainda existe) donde provêm seja, teoricamente, muito diferente. é evidente que o estado social europeu está em falência, que na prática muitos erros e muitos abusos foram cometidos. de alguma maneira proliferam aqueles que destas sociedades só querem retirar e partilhar os direitos, as liberdades e as garantias, mas quando se chega ao capítulo dos deveres e dos contributos, acham que isso é para os outros e que o estado deve ser mãe abnegada que tudo permite e tudo atura à sua prole. uma legião de parasitas do sistema, funcionários que não funcionam, desempregados que não querem emprego, viciados em prestações da segurança social.
sempre acreditei, ingenuamente suponho, que um país, uma cidade, qualquer grupo de pessoas mais ou menos alargado, funciona quando cada um dos seus elementos tem prazer e interesse no seu contributo para o bem estar comum. foi assim que me fiz funcionário público, sem ligar sobremaneira a proventos, pela satisfação de contribuir com o meu trabalho e a minha especificidade para o bem estar comum. romanticamente, como se trocasse as batatas que produzo, pelas galinhas que alguém cria. é no fundo essa a origem do dinheiro. cedo me apercebi, porém, que consciência, solidariedade, capacidade de auto-crítica e de auto-regulação não foram distribuídas em partes iguais por toda a gente.
o que mais me incomoda no meio disto tudo é que há um fundo de razão para o exercício do tal poder musculado. e que esse fundo de razão seja utilizado para retirar apoios a quem deles realmente precisa, o velho princípio de pagar o justo pelo pecador. que se reduzam ou retirem apoios a grupos sociais desfavorecidos e sem expressão eleitoral e que as maiorias, que no fundo apenas querem conservar previlégios seja à custa de que esquemas fôr, aplaudam de pé. temo por tempos em que palavras e conceitos como solidariedade, partilha, comunidade e altruismo passem definitivamente à categoria de arcaísmos.

quarta-feira, abril 11, 2007

beautifull things

embrenhados na azáfama do passar dos dias, passamos pelas coisas, pelos momentos, e não os vemos. escapam-se-nos pelo canto dos olhos. o que fazemos com o nosso tempo? sacos de plástico esvoaçando ao vento, os tons das folhas das árvores, os contornos que as ondas imprimem na areia das praias, as formas das núvens, as cores com que os carros e as roupas das pessoas pintam as nossas paisagens urbanas, as paletes cromáticas das flores dos jardins, quantas vemos reparamos nelas? cansados, queixamo-nos da falta de beleza nas nossas vidas, sem pararmos para olhar e ver.

sexta-feira, março 30, 2007

duplicidades

o que sabemos sobre nós próprios? como podemos garantir que a qualquer momento, sob determinadas circunstâncias, não emerge de nós um outro, desconhecido, que nos espante, e que sendo nós, não o é completamente, revelando-nos facetas que até aí ignorávamos?

sábado, fevereiro 03, 2007

questão impertinente

não deveríamos mais vezes rever aquilo que somos? Pormo-nos em questão permite corrigir rotas, descobrir a vida por outros prismas, arejar o bafio.