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quinta-feira, maio 15, 2008

gente vulgar

VIII

inácio sempre sonhou com uma vida perfeita, mas, por força da educação, a única coisa que conseguiu foi uma vida pré-feita.

segunda-feira, março 31, 2008

gente vulgar

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VII


genoveva esforça-se para ser uma mulher moderna. atenta ao evoluir da sociedade, tem uma carreira sólida na área das novas tecnologias. para a sua casa escolheu um ambiente com pinceladas minimalistas e orientais. frequentemente perfuma-a com cones de incenso que compra em caixas multifragrância compostas por pequenas saquetas individuais em plástico transparente. aprecia a comodidade da vida actual. gosta dos novos pacotes de bolachas tão práticos, divididos em pequenas embalagens plásticas de 5 ou 6 e que permitem que as restantes se mantenham frescas e estaladiças. nas suas máquinas de lavar, só usa detergente em pastilhas, embaladas individualmente em saquetas de plástico, tão fáceis de utilizar. bebe frequentemente chá, embalado em pequenos sacos, dentro de pequenos envelopes de papel. preocupada com a estética da sua figura, todos os dias substitui uma das refeições por uma barra de cereais que retira cuidadosamente da embalagem de plástico colorido e com design atraente e periodicamente renovado. de formação humanista, indigna-se com o estado do mundo, as guerras e os problemas ambientais.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

gente vulgar

VI

a vinda de alberto ao mundo foi tudo menos casual. filho tardio de um casal de classe média com profissões muito absorventes, o seu nascimento foi planeado ao mínimo pormenor. sendo filho único, depressa compreendeu que era à sua volta que tudo naquela casa girava. habituado ao show-off e a não dar ouvidos a ninguém desde a mais tenra idade, habituado a ser escutado com ar embevecido pelos seus pais de cada vez que opinava, habituado a encarar o mundo como um palco para a sua grandiosa existência onde todos os outros não passavam de personagens secundárias, quando criou um blog optou por não permitir comentários.

terça-feira, janeiro 08, 2008

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V

joão e bernardo fizeram todo o seu percurso escolar nos mesmos estabelecimentos e por várias vezes nas mesmas turmas. não se infira daqui que se tornaram bons amigos ou companheiros, muito pelo contrário, sempre estiveram em campos opostos. por educação ou por opção, bernardo investiu todos os seus esforços em ser bom aluno, bem educado, seguindo trilhos trilhados por outrém, encaixando naquilo que se esperava dele. joão, pelo contrário, cresceu livre de pressões ou não as assumiu nem lhes deu importância, o que vai dar exactamente ao mesmo lugar. o que joão tinha de "cool" e popular, bernardo tinha de "weirdo" e introvertido. bernardo sempre foi, aliás, um dos alvos preferidos dos gozos e escárnios do grupo de joão e amigos, gozos esses que amiúde adquiriam contornos de enxovalhamento. terminado o secundário, seguiram percursos independentes sem qualquer ponto de contacto. os seus caminhos voltaram a cruzar-se quando joão, no seu primeiro dia como porteiro do edifício da administração de uma grande multinacional, reconheceu o antigo colega de escola na figura de um dos assessores do conselho de administração.

sábado, dezembro 22, 2007

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IV

desde a mais tenra infância, paula evidenciou um pendor especial para o perfeccionismo. uma carreira académica brilhante, um esmero na sua imagem e uma eficácia invulgar em todos os pormenores conduziram-na a um lugar de topo na administração de uma grande empresa. tradicionalista e conservadora, cuidava de todos os pormenores da sua vida de modo a que nada falhasse. chegada a casa, estenuada, deixou-se cair na chaise-longue. tinha sido azar a sua empregada adoecer em vésperas de natal, tendo ela própria que fazer as compras para a consoada. por momentos relembrou a luta. relembrou a imagem da última couve portuguesa que restava no hipermercado em trânsito entre o expositor e o carrinho de outra cliente, a breve troca de palavras com a outra senhora, a recusa da outra em lhe ceder a couve, o saco de plástico que continha a couve a esticar-se e a rasgar-se puxado pelas duas, a couve a rebolar pelo chão, as duas jogando-se ao chão para apanharem a couve, a intervenção dos funcionários do estabelecimento. fazendo uso do seu famoso poder de argumentação conseguira convencê-los de que tinha sido ela a primeira a pegar na couve e a outra a tentar roubar-lha. olhou, vitoriosa, as folhas de couve que saiam para fora do saco de plástico que jazia a seus pés. agora sim, o seu natal iria ser perfeito.

terça-feira, dezembro 18, 2007

gente vulgar

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I

iniciada na nobre profissão do secretariado num tempo em que o domínio do papel químico e da máquina de escrever eram atributos apreciados, berta acredita piamente que os computadores são dotados de vontade própria. inúmeras vezes relata aos seus superiores episódios em que, apesar de ter repetido escrupulosamente a mesma sequência de comandos, a máquina lhe responde de forma bem diversa.


II

cristovão teve uma educação espartana em que o rigor e o autocontrolo não foram sugestões, foram antes exigências. habituado a repetir processos rigorosamente controlados por seu pai, ainda hoje é sempre com a mesma frase que pede a moeda aos condutores dos veículos que ajuda a estacionar. o autocontrolo, incorporado na sua personalidade durante a primeira infância, ajuda-o a respeitar os limites do seu território e a não riscar a tinta dos carros de quem lhe nega a recompensa e, assim, lhe atrasa a próxima dose.


III

para sobreviver sem sofrer, maria foi acumulando, a cada novo acontecimento adverso, a sensação de que tinha que calar o seu eu sensível. a dada altura, já não sabe bem precisar quando, transformou a sensação em certeza e endureceu a sua relação com o mundo, com os outros, com a própria existência. desde então um tom amargo contamina-lhe os dias. não tem noção do desagrado que provoca à sua volta, assim como não sabe das várias alcunhas que os colegas lhe inventaram, anaconda não sendo das mais ofensivas.