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quarta-feira, março 18, 2009

para quem pensa que é um mal endémico exclusivamente português

a inveja é a religião dos medíocres. reconforta-os, responde às inquietações que os roem por dentro e, em última análise, lhes apodrece a alma e lhes permite justificar a sua mesquinhez e cobiça, a ponto de acreditarem que são virtudes e que as portas do céu se abrirão apenas aos infelizes como eles, que passam pela vida sem deixar outra marca que não seja a das suas mal-amanhadas tentativas de amesquinhar os outros e de excluir e, se possível for, destruir aqueles que, pelo simples facto de existirem e de serem quem são, põem em evidência a sua pobreza de espírito, mente e entranhas. bem-aventurado aquele a quem os cretinos ladram, porque a sua alma nunca lhes pertencerá.

carlos ruiz zafón in o jogo do anjo

(ora não consta que o sr. zafón alguma vez tenha vivido em portugal, pelo que temos que concluir que, pelo menos, em espanha também existem.)

segunda-feira, abril 21, 2008

o jogo do anjo

boas notícias para quem, como eu, se apaixonou pel'a sombra do vento. carlos ruiz zafón acaba de lançar o segundo volume do que, agora se sabe, irá constituir uma tetralogia. passado nos anos 20 e 30 do século passado, el juego del angel volta a ter como panos de fundo o camitério dos livros esquecidos e a cidade de barcelona. será esse, aliás, o elemento de ligação entre os 4 romances, que funcionarão como elementos autónomos em termos de trama narrativa. a primeira edição do novo romance decorreu com pompa e circunstância, tendo sido postos à venda um milhão de exemplares.

david martín, o protagonista de el juego del angel, é um escritor que vive o momento mais trágico da sua vida quando é contactado por un editor de paris que lhe faz uma oferta irrecusável: escrever no prazo de um ano um livro como nunca antes existira. no entanto, a encomenda esconde un segredo e o jogo do anjo é activado quando martín aceita a encomenda... eu, que não gosto nada de fenómenos de massas, espero ansiosamente a edição portuguesa d'o jogo do anjo.

segunda-feira, abril 30, 2007

a sombra do vento


"- E então, o que me vais mostrar hoje que eu ainda nunca vi?
- Várias coisas. De facto, o que te vou mostrar faz parte de uma história. Não me disseste no outro dia que do que gostavas era de ler?
Bea fez que sim, arqueando as sobrancelhas.
- Pois bem, esta é uma história de livros.
- De livros?
- De livros malditos, do homem que os escreveu, de uma personagem que se escapou das páginas de um romance para o queimar, de uma traição e de uma amizade perdida. É uma história de amor, de ódio e dos sonhos que vivem na sombra do vento.
- Falas como a badana de um romance barato, Daniel.
- Deve ser porque trabalho numa livraria e vi demasiados. Mas esta é uma história real. E, como todas as histórias, começa e acaba num cemitério, embora não o género de cemitério que imaginas.
Sorriu como fazem as crianças às quais se promete uma adivinha ou um truque de magia.
- Sou toda ouvidos.
Esgotei o último gole de café e contemplei-a uns instantes em silêncio. Pensei no muito que desejava refugiar-me naquele olhar fugidio que se temia transparente, vazio. Pensei na solidão que me ia assaltar nessa noite quando me despedisse dela, sem mais truques nem histórias com que enganar a sua companhia. Pensei no pouco que tinha para lhe oferecer e no muito que queria receber dela."

melhor do que eu alguma vez poderia fazer, este excerto define o livro de carlos ruiz zafón que ando a ler. devagar, saboreado, não me apetece acabá-lo, lembro-me dele de vez em quando ao longo do dia. há muito tempo que um livro não me "levava" desta maneira. a prosa poética, a eficácia dos diálogos, as encruzilhadas duma história que tem barcelona no pós 2ª guerra mundial como pano de fundo. "uma história inesquecível sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros", como se diz na capa, por debaixo do título. para aguçar o apetite a quem ainda não leu, fica mais um diálogo:

"Riu nervosa.
- Não sei o que me deu. Não te ofendas, mas às vezes uma pessoa sente-se mais à vontade para falar com um estranho do que com as pessoas que conhece. Porque será?
Encolhi os ombros.
- Provavelmente porque um estranho nos vê como somos, e não como quer acreditar que somos.
- Isso também é do teu amigo Carax?
- Não, isto acabo eu de inventar para te impressionar.
- E como me vês tu a mim?
- Como um mistério.
- Esse é o elogio mais estranho que alguma vez me fizeram.
- Não é um elogio. É uma ameaça.
- Porquê?
- Os mistérios é preciso resolvê-los, averiguar o que escondem.
- Se calhar decepcionas-te ao ver o que há lá dentro.
- Se calhar surpreendo-me. E tu também.
- O Tomás não me tinha dito que tivesses tanta lata.
- É que a pouca que tenho a reservo toda para ti.
- Porquê?
Porque me metes medo, pensei."