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sábado, maio 10, 2008

amesterdão

"no seu canto da zona ocidental de londres, e na sua rotina diária, em que todas as preocupações se centravam em si mesmo, era fácil para clive pensar na civilização como a soma de todas as artes, associadas ao design, à culinária, aos bons vinhos e a coisas semelhantes. mas agora parecia-lhe que ela era o que de facto era - quilómetros quadrados de casas modernas mesquinhas, cujo principal objectivo era suportar antenas de televisão e parabólicas, fábricas que produziam tralha inútil para ser anunciada na televisão e, em lúgubres lotes de terreno, filas de camiões para as distribuirem; e, por todo o lado, estradas e a tirania do tráfego. tudo aquilo fazia lembrar o rescaldo de uma festa desvairada. ninguém teria desejado que as coisas fossem assim, mas não lhes tinham perguntado. ninguém planeara aquilo, ninguém quisera aquilo, mas a maioria das pessoas era obrigada a viver ali. ao observar aquele espectáculo quilómetro após quilómetro, quem poderia suspeitar que purcell ou britton, shakespeare ou milton, tinham alguma vez existido? de vez em quando, no momento em que o comboio ganhava velocidade e se afastava mais de londres, o campo aparecia e com ele o início da beleza, ou a recordação dela, até que, segundos mais tarde, se diluía num rio que se transformava numa represa acimentada ou num súbito ermo agrícola sem cercas nem árvores, e estradas, novas estradas a estenderem-se até ao infinito, despudoradamente, como se tudo o que importava fosse estar noutro sítio. no que dizia respeito ao bem-estar de todas as outras formas de vida da Terra, o projecto humano era, não apenas um fracasso, mas um erro do princípio ao fim."

ian mcewan, in amesterdão

gosto principalmente da imagem das casas modernas mesquinhas, cujo principal objectivo é suportarem antenas de televisão e parabólicas... mas amesterdão, escrito há 10 anos atrás, não é um livro com pretensões a manifesto ambientalista, eu é que gostei particularmente da força destas imagens. é uma deliciosa reflexão sobre o sucesso, a ilusão do sucesso, a fragilidade da política e das estratégias editoriais dos jornais. sob o olhar irónico de mcewan, ninguém se salva. nem o político que se vê envolvido num escândalo sexual, nem o director do jornal que se prepara para publicar as fotografias compremetedoras, nem o homem que vende as fotografias ao jornal, nem o compositor de renome a quem foi encomendada a sinfonia para assinalar a passagem do milénio. quatro homens ligados por uma mulher, de quem todos foram amantes e que acaba de morrer. pelo meio, a fragilidade de uma amizade, devorada pelo despeito, pelo orgulho, pelo egoísmo e pela fama. uma crónica mordaz, um olhar desapaixonado sobre as esferas do poder. e ainda há quem lhes chame elites...

quinta-feira, maio 01, 2008

a história das coisas

várias verdades inconvenientes. embora seja de origem norteamericana, aplica-se a nós como uma luva. são 21 minutos didácticos de reflexão sobre o nosso sistema actual de consumo, que acaba por condicionar toda a organização social. e as relações internacionas também. poderão dizer que não é bem assim, que as ideias vinculadas não estão totalmente certas, mas parece-me bastante aproximado. desapaixonado, pragmático e não panfletário. bom para reflectir neste 1º de maio, que se quer dos trabalhadores. e das pessoas por detrás desses trabalhadores. algures na história houve uma preversão do sentido do trabalho. quando é que deixámos de trabalhar para a comunidade e passámos a trabalhar para alguns indivíduos? quando é que os pratos da balança se desequilibraram? este documentário devia ser mostrado nas escolas aos nossos adolescentes, seguido de conversa alargada, debate. mas quem controla hoje em dia a escola e as ideias que devem ou não devem ser vinculadas? interessa mesmo fazer das gerações futuras seres conscientes, informados, participantes, ou interessa esconder parte da verdade, parte do sistema? o velho das botas, que caiu da cadeira há uns anos atrás, é que dizia qualquer coisa do género: quanto mais culto um povo, mais difícil de governar.




agradeço à idadedapedra por me ter conduzido até ao vídeo.

sábado, abril 26, 2008

rábula do dia 26 de abril de 2018

liberdade, pois, mas as nossas sociedades apresentam-nos agora desafios que não se colocavam em 1974. aos poucos vamos trocando a liberdade pela segurança. com o advento do trusted computing, que algumas empresas de informática se preparam para introduzir no mercado daqui a 2 ou 3 anos, e com o cruzamento das bases de dados, não me parece que esta rábula, que recebi por e-mail, seja de todo impossível daqui a 10 anos. novos desafios para quem acredita na liberdade como valor a defender.



- telefonista: telepizza, boa noite!

- cliente: boa noite, quero encomendar pizzas...

- telefonista: pode dar-me o seu n.i.n.?

- cliente: sim, o meu número de identificação nacional é o 6102 1993 8456 5463 2107.

- telefonista: obrigada, sr. lacerda. o seu endereço é na avenida paes de barros, 19, apartamento 11, e o número do seu telefone é o 21549 4236, certo? o telefone do seu escritório na liberty seguros, é o 21 574 52 30 e o seu telemóvel é o 96 266 25 66, correcto?

- cliente: como é que conseguiu todas essas informações?

- telefonista: porque estamos ligados em rede ao grande sistema central.

- cliente: ah, pois, é verdade! quero encomendar duas pizzas: uma quatro queijos e outra calabresa...

- telefonista: talvez não seja boa ideia...

- cliente: o quê...?

- telefonista: consta na sua ficha médica que o senhor sofre de hipertensão, diabetes e tem a taxa de colesterol muito alta. além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas perigosas para a saúde.

- cliente: claro! tem razão! o que é que sugere?

- telefonista: por que é que não experimenta a nossa pizza superlight, com tofu e rabanetes? o senhor vai adorar!

- cliente: como é que sabe que vou adorar?

- telefonista: o senhor consultou a página 'receitas gulosas com soja' da biblioteca municipal, no dia 15 de janeiro, às 14:27 e permaneceu ligado à rede durante 39 minutos. daí a minha sugestão...

- cliente: ok, está bem! mande-me então duas pizzas tamanho familiar!

- telefonista: é a escolha certa para o senhor, a sua esposa e os vossos quatro filhos, pode ter a certeza.

- cliente: quanto é?

- telefonista: são 49,99.

- cliente: quer o número do meu cartão de crédito?

- telefonista: lamento, mas o senhor vai ter que pagar em dinheiro. o limite do seu cartão de crédito foi ultrapassado.

- cliente: tudo bem. posso ir ao multibanco levantar dinheiro antes que cheguem as pizzas.

- telefonista: duvido que consiga. a sua conta à ordem está com o saldo negativo.

- cliente: meta-se na sua vida! mande-me as pizzas que eu arranjo o dinheiro. quando é que entregam?

- telefonista: estamos um pouco atrasados. serão entregues em 45 minutos. se estiver com muita pressa pode vir buscá-las, se bem que transportar duas pizzas na sua moto não seja lá muito aconselhável. além de ser perigoso...

- cliente: mas que história é essa? como é que sabe que eu vou de moto?

- telefonista: peço desculpa, mas reparei aqui que não pagou as últimas prestações do carro e ele foi penhorado. mas a sua moto está paga e então pensei que fosse utilizá-la.

- cliente: chiça.......!!!!!!!!!

- telefonista: gostaria de pedir-lhe para não ser mal educado... não se esqueça de que já foi condenado em Julho de 2006 por desacato em público a um agente da autoridade.

- cliente: (silêncio).

- telefonista: mais alguma coisa?

- cliente: não. é só isso... não. espere... não se esqueça dos 2 litros de coca-cola que constam na promoção.

- telefonista: lamento, mas o regulamento da nossa promoção, conforme citado no artigo 095423/12, proíbe a venda de bebidas com açúcar a pessoas diabéticas...

- cliente: aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!! vou atirar-me pela janela!!!!!

- telefonista: (ri-se) e torcer um pé? não se esqueça que o senhor mora no rés-do-chão...!

domingo, abril 20, 2008

only an expert can deal with the problem

only an expert, a incluir no próximo registo em disco de laurie anderson, homeland, que, se tudo correr dentro do previsto, será editado ainda este ano. o habitual ácido diluído com ironia. uma visão crítica de dentro da sociedade norteamericana. now, the problem is: quase tudo também se aplica à(s) nossa(s) sociedade(s) europeia(s).


now only an expert can deal with the problem
because half the problem is seeing the problem
and only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem
so if there's no expert dealing with the problem
it's really actually twice the problem
'cause only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem

now in America we like solutions
we like solutions to problems
and there's so many companies that offer solutions
companies with names like the pet solution, the hair solution.
the debt solution. the world solution. the sushi solution.
companies with experts ready to solve the problems.
'cause only an expert can see there's a problem
and only an expert can deal with the problem
only and expert can deal with the problem

now let's say you're invited to be on oprah
and you don't have a problem
but you want to go on the show, so you need a problem
so you invent a problem
but if you're not an expert in problems
you're probably not going to invent a very plausible problem
and so you're probably going to get nailed
you're going to get exposed
you're going to have to bow down and apologize
and beg for the public's forgiveness.
'cause only an expert can see there's a problem
and only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem

now on these shows, the shows that try to solve your problems
the big question is always "how can I get control?
how can I take control?"
but don't forget this is a question for the regular viewer
the person who's barely getting by.
the person who's watching shows about people with problems
the person who's part of the 60% of the u.s. population
1.3 weeks away, 1.3 pay checks away from homelessness.
in other words, a person with problems.
so when experts say, "let's get to the root of the problem
let's take control of the problem
so if you take control of the problem you can solve the problem."
now often this doesn't work at all because the situation is completely out of control.
'cause only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem

so who are these experts?
experts are usually self-appointed people or elected officials
or people skilled in sales techniques, trained or self-taught
to focus on things that might be identified as problems.
now sometimes these things are not actually problems.
but the expert is someone who studies the problem
and tries to solve the problem.
the expert is someone who carries malpractice insurance.
because often the solution becomes the problem.
'cause only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem

now sometimes experts look for weapons.
and sometimes they look everywhere for weapons.
and sometimes when they don't find any weapons
sometimes other experts say, "if you haven't found any weapons
it doesn't mean there are no weapons."
and other experts looking for weapons find things like cleaning fluids.
and refrigerator rods. and small magnets. And they say,
"
these things may look like common objects to you
but in our opinion, they could be weapons.
or they could be used to make weapons.
or they could be used to ship weapons.
or to store weapons
."
'cause only an expert can see they might be weapons
and only an expert can see they might be problems.
'cause only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem

and sometimes, if it's really really really hot.
and it's July in January.
and there's no more snow and huge waves are wiping out cities.
and hurricanes are everywhere.
and everyone knows it's a problem.
but if some of the experts say it's no problem
and other experts claim it's no problem
or explain why it's no problem
then it's simply not a problem.
but when an expert says it's a problem
and makes a movie and wins an oscar about the problem
then all the other experts have to agree that it is most likely a problem.
'cause only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem

and even though a country can invade another country.
and flatten it. and ruin it. and create havoc and civil war in that other country
if the experts say that it's not a problem
and everyone agrees that they're experts good at solving problems
then invading that country is simply not a problem.
and if a country tortures people
and holds citizens without cause or trial and sets up military tribunals
this is also not a problem.
unless there's an expert who says it's the beginning of a problem.
'cause only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem

only an expert can see there's a problem
and see the problem is half the problem
and only an expert can deal with the problem
only an expert can deal with the problem.

domingo, janeiro 20, 2008

e você? já tem o seu certificado de qualidade?

genial luís afonso no público de hoje. no cartaz pode ler-se "atenção cidadãos: devem certificar-se que estão dentro dos parâmetros standard antes de se submeterem ao controlo de qualidade. não nos responsabilizamos por eventuais danos físicos ou psicológicos". é assim que o sistema nos quer, todos direitinhos, perfilados, iguaizinhos, consumindo as mesmas coisas, obedientes e contentes. a esses, os cidadãos normalizados, o sistema recompensa, oferecendo-lhes uma vida préprogramada e dando-lhes um certificado de qualidade. a massa amorfa que deve produzir sem questionar e consumir sem questionar também. em nome do santo crescimento da economia (que é como quem diz, do crescimento dos ganhos dos donos do dinheiro). da defesa dos tradicionais valores ocidentais: liberdade (para consumir), igualdade (no consumo), fraternidade (todos de mãos dadas a consumir). os outros, os não normalizados, ficam por sua própria conta e risco, à margem, logicamente. lesões físicas ou psicológicas? paciência, tivessem aceitado a normalização.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

momento emo

parece que o post anterior foi o meu momento emo (lê-se imou). descobri, em conversa com os meus filhos, que parte dos adolescentes actuais é designada como imous. surge a designação por encurtamento da palavra inglesa emotional. emo, de emotional people. depois dos hippies, dos freaks, dos punks, dos urbanodepressivos, dos neoromânticos, dos betos, dos grunges, dos góticos, dos dreads e de todas as variantes, cruzamentos e reciclagens, temos também os emos. têm farda e maquilhagem próprias como código de identificação do grupo. serei um eterno adolescente?

quinta-feira, janeiro 10, 2008

não sei se é verdade, mas gosto da ideia

o cérebro humano está mais activo quando se dorme do que quando se vê televisão. li isto algures, sem qualquer base científica, e achei que sim.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

constatação #30

os direitos humanos e essa treta toda, só nos dias úteis e se não houver interesses económicos em jogo. nunca aos fins de semana.

ainda bem que eu vivo na província, mas mesmo assim estou um pouco enjoado

queria falar sobre a cimeira ue-áfrica, mas nem sei por onde começar. antes de mais, porque é que lhe chamaram cimeira? a palavra cimeira evoca elevação, positivismo e outros conceitos que nada têm a ver com o que aconteceu. baixeira, seria uma palavra muito mais consentânea com a realidade. uma abordagem séria seria referir, à semelhança do que já muita gente fez, o facto ridículo que constituiu ver alguns dos maiores malfeitores do mundo a serem recebidos com subserviência. os 80 quartos que a delegação angolana ocupou num dos melhores e mais caros hotéis da capital também me parecem dignos de nota. com tanta hipocrisia à solta, lisboa não foi certamente um lugar muito recomendável durante o fim de semana. ver a democracia europeia a enxovalhar-se para garantir os mercados africanos foi um triste e degradante espectáculo. já hoje, a imprensa chinesa, que como toda a gente sabe é isenta e independente, anunciava o fracasso da cimeira. claro que isto não tem nada a ver com os interesses chineses em áfrica. outra imprensa independente, a do zimbabué, anunciava a maneira heróica como o seu querido líder se comportou e como rechaçou os argumentos e a contestação dos malditos racistas que apenas querem denegrir a imagem de um homem bom e dedicado ao bem estar do seu povo. a festa do regresso vai ser de arromba, não tenhamos dúvidas. e porque sorri o nosso primeiro no fim desta palhaçada? apetece fazer uso da velha frase: parem o mundo que eu quero descer.

sábado, dezembro 01, 2007

kual krise?

isto é um resmungo. acabado de chegar do supermercado e de ver o meu povo comemorando o dia da restauração da independência e o mundial de luta contra a s.i.d.a., em família, compulsivamente consumindo, com aquele brilho alienado estampado nas pupilas. crise, qual quê? só se for de valores.

domingo, novembro 04, 2007

a escola, a família, o ranking e o resto da sociedade

não deixa de ser interessante esta discussão que anda na blogosfera sobre o ranking das escolas. confesso que, ao contrário da maioria dos bloguers, não consultei a tabela e não imagino em que posição se encontra a "minha" escola. e parece-me que isso é de todo irrelevante. não foi a escola que me despertou para o saber. ou estava nos meus genes, ou foi o contexto familiar que teve esse mérito. dos professores que tive, ficaram 3 ou 4 figuras de referência ao longo de 12 anos de percurso, porque da faculdade não ficou nenhuma. 3 ou 4 professores, entre as várias dezenas que tive, que me estimularam o pensamento autónomo e contribuiram para que gostasse de aprender. não me parece que tivesse sido diferente num outro contexto.

no debate escola pública vs escola privada, não tomo posição. de um e outro lado há boas e más escolas, há bons e maus professores. com clientela seleccionada é mais fácil trabalhar e obter bons resultados, isto parece-me óbvio. e parece-me óbvio também que toda esta suruba tem como único fim abrir caminho para a privatização em massa das escolas. mais uma vez se cai no erro de que gestões privadas são melhores, por definição, do que gestões públicas.

mas voltemos ao contexto. sempre tive colegas de todos os estratos sociais e não creio que crescer numa redoma de ambiente social seleccionado contribua em alguma coisa para o sucesso do indivíduo. conviver com a pluralidade, sim. ter a noção da diversidade de ambientes familiares, tomar consciência das assimetrias sociais. não acredito em castas nem em elites, seja qual for o parâmetro em consideração.

sendo filho de professores e casado com uma, conheço demasiado bem o meio para me permitir avaliações generalistas da classe profissional. provavelmente, em vez de estarmos a discutir a escola, deveriamos antes estar a discutir a família e as condições que são proporcianadas pela sociedade para que exerçam as suas funções educativas. a escola não se pode substituir à família e não pode nem deve ser-lhe exigida a responsabilidade de, além da formação académica, formar também cívica e pessoalmente os indivíduos em crescimento. vejo uma nova geração crescer sem perceber que não pode haver liberdade sem responsabilidade, e isso deve-se principalmente à família e às políticas educacionais que não deixam a escola dar-se ao respeito, veja-se o novo estatuto do aluno. enquanto a retenção de um aluno (que não é mais que um eufemismo para o clássico chumbo) exigir um processo burocrático com produção de muitas páginas de documentos e a aceitação tácita por parte dos encarregados de educação, será muito difícil a escola exercer efectivamente as funções que lhe são exigidas. denegrir publicamente a imagem da classe docente, como este ministério tem feito, também não contribui em nada para que o sistema funcione com qualidade.

é na família que se devia centrar esta discussão, e, de forma mais alargada, nos valores sociais. não se pode exigir que a escola seja um reduto de boas práticas, quando todo o resto da sociedade valoriza mais a forma do que o conteúdo individual. o apelo ao sucesso fácil e a projecção social de personalidades ocas, que os media levam a cabo, são maus exemplos para jovens em fase de crescimento. cabe à família desmistificar estes fenómenos e dar sólida formação de valores, mas para isso é preciso tempo, e as exigências sociais, centradas na produtividade ilimitada e na ilusão do bem estar eterno e da vaidade social, não deixam esse tempo disponível. para quando um ranking de famílias?

domingo, outubro 28, 2007

descubra a diferença

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as imagens que se reproduzem acima têm uma diferença. além das óbvias diferenças de ampliação e de gama de cores, a imagem do direita foi manipulada por uma revista francesa de grande circulação. a fotografia da esquerda foi a que foi captada pela objectiva do fotógrafo, a da direita a que foi publicada e vista por muitos milhares de cidadãos franceses. a diferença é subtil. se observarem bem, na foto da direita falta o pneu de banha logo acima do cós dos calções de sarko. modificando uns pixels, prolonga-se o negro do encosto lombar e redesenha-se a silhueta de sua excelência o presidente da república francesa. a necessidade de vender políticos aplicando as leis de formatação social da publicidade e da manipulação de massas está para ficar. redesenham-se silhuetas da mesma maneira que se acentuam texturas e nuances cromáticas labiais em anúncios onde se quer evidenciar os sinais biológicos do desejo feminino. a grande diferença está nos contornos morais da(s) questão(ões). se manipular para aumentar as vendas de um produto com vista ao aumento dos lucros é relativamente aceitável, e o funcionamento do mercado torna inquestionável, vender políticos já apresenta contornos morais mais que duvidosos. a exploração, por parte dos acessores de imagem, de factores de adesão subliminares, não é novidadade no mundo da política. A fotografia oficial do candidato há muito que é retocada, estudada ao pormenor, e as possibilidades de manipulação da imagem oferecidas pelas aplicações informáticas são ferramenta utilizada frequentemente na optimização do produto final. mas perante isto, torce-se o nariz, não se concorda muito, mas passa-se à frente. a passagem dessa manipulação para a imprensa é que já é mais preocupante. um sinal dos tempos, sem dúvida. tempos em que a actividade política serve interesses dissimulados, para não dizer obscuros, e em que o cidadão, o eleitor, é encarado como matéria moldável. até que ponto é que somos livres?

quarta-feira, outubro 17, 2007

cinismos e contracensos

dia internacional da erradicação da pobreza, desperta contra a pobreza, campanha pobreza zero. há uns anos atrás, teria estado lá, a despertar, mas hoje, um enorme cepticismo baseado na experiência e na observação impede-me de me entusiasmar com este tipo de eventos. despertar? a pobreza é um dado novo nas nossas existências? chamar a atenção dos líderes políticos de que é preciso fazer mais e melhor contra a pobreza? alguém acredita que eles não tenham consciência do mundo em que vivem, da pobreza nos seus próprios países? sendo um problema transversal, atinge todos os países. é um ponto sem nó. não é novidade para ninguém que a capacidade produtiva do planeta é suficiente para todos os seus habitantes e que a pobreza resulta pura e simplesmente da divisão desequalitária da riqueza. entre os países e dentro dos países. perdoem-me o desabafo, mas cada vez o mundo se torna mais incompreensível. lutar contra a pobreza vai contra os princípios básicos do capitalismo dominante, que o mundo rejubila por ter levado a melhor sobre o comunismo. então a palavra de ordem não é arrecadar o mais possível? então o crescimento económico e o crescimento do poder das empresas não é o novo graal? só posso concluir que os chamados objectivos do milénio para 2015 foram um enorme acto de cinismo, e que a maior parte dos líderes mundiais que assinaram o documento na o.n.u. tinha os dedos cruzados atrás das costas e davam risadinhas interiores durante o acto, quais meninos mal comportados quando mentem com convicção.
e depois, a pobreza e a desgraça fazem parte dos ícones obrigatórios em qualquer serviço noticioso. para o povo sentir aquele incomodozinho e ficar muito feliz porque ainda tem umas résteas de sensibilidade no sistema límbico. depois vem o futebol e a telenovela, e tudo passa. mas fica a sensação de que somos muito solidários. não importa que no dia seguinte olhemos os pobres da nossa comunidade com desdém e pensemos que são assim porque não querem trabalhar. que pensemos que os pretos não têm emenda e que nunca conseguirão fazer e manter um país decente. salvam-se alguns idealistas, que por erro genético e desadequação social vão mantendo vivas estas chamas. ou não passa tudo de um imenso folclore?


música: death of an idealist, iLiKETRAiNS





sexta-feira, agosto 03, 2007

compro, logo existo

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actualização descartável do velho aforismo de descartes. pensar e deitar fora, porque o pensamento já não confere status. cogito um pouco mais naquilo que vou comprar. ergo o cartão de crédito. sumo-me da vida pensante. consumo, consumo, consumo.

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barbara kruger, i shop therefore i am, fotolitografia em saco de papel, 1990, the museum of modern art, new york

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domingo, julho 08, 2007

festa na aldeia

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ontem houve festa na aldeia. duas festas, para ser mais preciso. quero desde já deixar bem expresso o meu desagrado por termos sido vítimas de um logro. disseram por aí que o dia 07/07/07 ia ser o dia em que lisboa seria o centro da aldeia, com a festa das 7 maravilhas, mas depois os americanos e os ingleses, cheios de inveja, inventaram à pressa uma festa nos seus bairros, só para estragar a festa de lisboa. ainda por cima disfarçaram a coisa convidando outros bairros, de maneira a que lisboa passasse perfeitamente despercebida. duas festas globais. uma dedicada ao património cultural edificado, que nos foi deixado pelas gerações passadas, outra dedicada ao património natural, muito mais antigo, e muito mais necessário para as gerações futuras. não é de estranhar, pois, que uma tenha sido uma festa televisiva clássica, enquanto que a outra foi principalmente um net-event, que a rtp tentou, mal e porcamente, acompanhar. falou-se muito, blá blá blá, ficamos a saber quais as estrelas do nosso bairro que fecham a água quando têm shampoo nos olhos, quem é que separa as garrafas de cerveja das latas de cerveja. de repente toda a gente tinha uma dica para dar.

a festa das maravilhas, foi um bocado para o pirosa, com aquela gente quase toda a cantar em playback. alguém devia avisar o josé carreras que não tem jeito nenhum para a coisa. houve uns efeitos giros, tipo cerimónia dos jogos olímpicos, o fogo de artifício que se impunha e o anúncio das maravilhas, as do bairro e as da aldeia. as do bairro até foram bem distribuídas (é para estas coisas que serve a ironia). 6 para a região de lisboa e uma para o berço da nacionalidade. 3 mosteiros, 2 castelos, 1 palácio e 1 anexo que ninguém sabe bem para o que serve ou serviu. já as da aldeia, ficaram bem espalhadas. concordo perfeitamente com o taj mahal e com petra, com a muralha que se vê do espaço e com machu-pichu, até com o coliseu e a outra pirâmide do méxico, mas o crucifixo do rio de janeiro... é que não tem nada a ver! então e as estátuas da ilha da páscoa? então e o alhambra?

a festa do planeta foi um bocado confusa. muito sinceramente, não vi consciência ecológica nenhuma. até a minha filha de 13 anos reparou que os gajos estavam a gastar bué da energia. já se calculou o impacto negativo que este live earth teve no efeito de estufa? as emissões de co2 devem ter sido qualquer coisa! foram 24 horas de luta (lá está ela outra vez, a ironia). para ser uma coisa a sério, deveriam ter feito como nos encontros da rainbow family of the living light. enormes concertos acústicos à luz de fogueiras. passei o tempo a tentar perceber até que ponto os figurões, os do bairro e os da aldeia, estavam ali por acreditarem verdadeiramente e estarem dispostos a participar numa mudança de atitudes e de hábitos, ou apenas a promoverem o figurino que os embrulha. ao menos nesta parte, a festa das maravilhas foi mais autêntica. era figurino e ponto, sem complexos nem falsas consciências. e depois, o al gore não é o bob geldof, o planeta agonizante não é tão apelativo como as crianças pretinhas agonizantes e com moscas nos olhos, e a coisa não tem piada sem o bono, que é o gajo mais porreiro da aldeia.

foto: full moon party at the rainbow gathering of the tribes, croatia, 2004, pilhada daqui

sexta-feira, junho 01, 2007

dia mundial da criança

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neste dia mundial da criança, muitas criancinhas vão ter mais um presentinho para juntar à pilha dos brinquedos esquecidos a um canto e vão fazer as suas birrinhas manipulatórias. encurralados entre as exigências dos seus meninos e a guerra comercial que transformou este dia em mais um dia para se oferecer uma coisa a alguém, os papás, com um brilhozinho tolo nos olhos, vão ficar a olhar para os seus meninos e a pensar que eles são a coisinha mais querida, mais linda, mais fofa e incrível que alguma vez viram. dos outros, dos meninos que cedo provam as agruras da vida e aprendem que ela nem é fácil nem justa, muito poucos se vão lembrar.