no post anterior evitei fazer mais considerações sobre imagens e iconografias, mas parece que se impõem considerações acessórias. questões levantadas em comentário. as imagens são realmente fundamentais na nossa sociedade, são uma forma de comunicação poderosa. de maneira nenhuma pretendo fazer um manifesto anti-imagens. também é verdade que usando do livre arbítrio, cabe a cada um selecionar aquilo que lhe entra pelos olhos adentro. o que está em questão não são as imagens em geral, mas alguns tipos de imagens e a maneira como elas são tratadas e os fins (mais ou menos obscuros) que essa exposição serve.
é verdade que temos a opção de não ver aquilo que não queremos ver. pessoalmente, não vi o vídeo de saddam hussein que motivou o post. não quis ver, não quero ver. mas isto aplica-se a uma margem pequena da população, que me atrevo a chamar de esclarecida. a turba anónima, que devora floribellas e pequenos escândalos, muitas vezes não tem o poder discriminatório para o fazer. ou não o quer utilizar. polémico, eu sei, mas é isto que penso.
as imagens a que me refiro são difundidas, a maior parte das vezes, como suporte da informação. palavra dúbia esta, pois o prefixo in normalmente é um prefixo de negação. a raiz etimológica aqui é obviamente outra, pois informação não é antónimo de formação. as imagens da informação, então, deverão ser imagens que acrescentem algo, que elucidem, que completem a notícia verbal. não deveriam os orgãos de comunicação ponderar o que difundem? a exposição de um homem a caminho da morte serve realmente a informação? os videos semipornográficos que "ilustraram" os primeiros tempos do processo casa pia acrescentaram alguma coisa à informação? tenho muitas dúvidas. e voltamos à questão da selecção. que poder de selecção temos, quando estamos a assistir a um serviço noticioso? a imagem é posta no ar e, quando damos por isso, já ela nos entrou pelos olhos adentro.
em causa está também a dessensibilização da população em geral a certo tipo de imagens. as primeiras imagens de guerra registadas tinham um impacto enorme, pois colocavam o cidadão comum perante a realidade nua e crua. sensibilizaram para os horrores da guerra e tiveram um papel crucial na consciência anti-belicista. esta foto tornou-se um ícone da guerra do vietname, porque punha a nú o horror e o sofrimento. hoje em dia, seria apenas mais uma imagem, no meio de tantas, bem mais chocantes, a que nos habituámos a ver nos serviços de informação.
estão a ver onde é que eu quero chegar?