adeus euro, adeus scolari. amanhã o país vai acordar e lembrar-se da crise, dos preços dos combustíveis e dos alimentos, de toda a realidade que é deixada para trás de cada vez que a selecção tem êxito. vai ser um país de ressaca, tristonho e acabrunhado, sem fé no futuro nem nos políticos. sem força para dar a volta por cima. o ano escolar a acabar, este tempo de verão que convida à preguiça, a silly season a começar (sim, eu sei que neste país nunca acaba). como será possível pôr este país a produzir? modernizá-lo, trazê-lo para o vigésimo primeiro século da era cristã, actualizá-lo? esta semana o meu filho mais velho fez exame de português para acesso ao ensino superior. a prova de exame serve de exemplo do que uma certa intelectualidade atávica representa. camões, memorial do convento e padre antónio vieira. passado, passado, passado. as glórias dos descobrimentos, as glórias dos descobrimentos. já sei que me vão dizer que camóes é importantíssimo, que o memorial do convento é uma obra esplêndida e que vieira foi um humanista de se lhe tirar o chapéu. mas eu vejo as coisas de outra maneira. enquanto a cultura portuguesa de maior relevo não for a actual, enquanto o orgulho pátrio não for no país que temos agora, no povo que somos agora, bem podemos protestar contra a crise, dizer que a culpa é sempre dos outros, que nunca sairemos dela. bem podemos ficar à espera do cadáver pútrido do d. sebastião que um dia chegará numa manhã poluída. sair dos gabinetes e vir para o terreno, acabar com o sucesso fácil e momentâneo, com as vaidades e ostentações sociais, com o cada vez maior fosso entre os que muito têm e os que não têm quase nada, olharmos uns para os outros, olhos nos olhos, e sentirmo-nos parte de um povo , de uma sociedade, de uma comunidade, essa é a difícil tarefa que temos pela frente. arregaçar as mangas e trabalhar, organizar, produzir mais com menos esforço. marcar mais golos com menos tempo de posse de bola e com menos floreados. jogadas certeiras e organizadas. é assim que se ganham os jogos.