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quarta-feira, março 18, 2009

para quem pensa que é um mal endémico exclusivamente português

a inveja é a religião dos medíocres. reconforta-os, responde às inquietações que os roem por dentro e, em última análise, lhes apodrece a alma e lhes permite justificar a sua mesquinhez e cobiça, a ponto de acreditarem que são virtudes e que as portas do céu se abrirão apenas aos infelizes como eles, que passam pela vida sem deixar outra marca que não seja a das suas mal-amanhadas tentativas de amesquinhar os outros e de excluir e, se possível for, destruir aqueles que, pelo simples facto de existirem e de serem quem são, põem em evidência a sua pobreza de espírito, mente e entranhas. bem-aventurado aquele a quem os cretinos ladram, porque a sua alma nunca lhes pertencerá.

carlos ruiz zafón in o jogo do anjo

(ora não consta que o sr. zafón alguma vez tenha vivido em portugal, pelo que temos que concluir que, pelo menos, em espanha também existem.)

quinta-feira, setembro 11, 2008

nada de novo debaixo do sol

de regresso. foi uma longa pausa, durante a qual pouco se passou. o mundo continua desinteressante ou interessante, conforme a perspectiva, mais um verão que está quase no fim. reinício de actividades com um dos vídeos mais interessantes que alguma vez foram feitos. pelo menos para o meu sentido estético.

terça-feira, julho 22, 2008

entre o riso e as lágrimas

nós nunca deixamos de ser fundamentalmente novos, condenados a ter vários rostos e incapazes de fazer coincidir a nossa intenção com o olhar dos outros. o mundo é uma feira de mal-entendidos que alimenta todas as anedotas e todas as tragédias. a tragédia é ontologicamente igual à comédia - entre o riso e as lágrimas, entre o bem e o mal, não há senão uma cómoda diferença de perspectiva. e a perspectiva foi um mecanismo de defesa do homem face ao absurdo da existência.

inês pedrosa, in a perfeição da clarabóia que falta
(introdução à edição do círculo de leitores de o livro do riso e do esquecimento de milan kundera)

quinta-feira, maio 01, 2008

a história das coisas

várias verdades inconvenientes. embora seja de origem norteamericana, aplica-se a nós como uma luva. são 21 minutos didácticos de reflexão sobre o nosso sistema actual de consumo, que acaba por condicionar toda a organização social. e as relações internacionas também. poderão dizer que não é bem assim, que as ideias vinculadas não estão totalmente certas, mas parece-me bastante aproximado. desapaixonado, pragmático e não panfletário. bom para reflectir neste 1º de maio, que se quer dos trabalhadores. e das pessoas por detrás desses trabalhadores. algures na história houve uma preversão do sentido do trabalho. quando é que deixámos de trabalhar para a comunidade e passámos a trabalhar para alguns indivíduos? quando é que os pratos da balança se desequilibraram? este documentário devia ser mostrado nas escolas aos nossos adolescentes, seguido de conversa alargada, debate. mas quem controla hoje em dia a escola e as ideias que devem ou não devem ser vinculadas? interessa mesmo fazer das gerações futuras seres conscientes, informados, participantes, ou interessa esconder parte da verdade, parte do sistema? o velho das botas, que caiu da cadeira há uns anos atrás, é que dizia qualquer coisa do género: quanto mais culto um povo, mais difícil de governar.




agradeço à idadedapedra por me ter conduzido até ao vídeo.

quinta-feira, abril 03, 2008

evasão #5 (invasão)

mergulhar nos meandros da mente humana.




























































fotografias: misha gordin, série shout
música: steve jansen, gap of cloud



















segunda-feira, março 31, 2008

gente vulgar

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VII


genoveva esforça-se para ser uma mulher moderna. atenta ao evoluir da sociedade, tem uma carreira sólida na área das novas tecnologias. para a sua casa escolheu um ambiente com pinceladas minimalistas e orientais. frequentemente perfuma-a com cones de incenso que compra em caixas multifragrância compostas por pequenas saquetas individuais em plástico transparente. aprecia a comodidade da vida actual. gosta dos novos pacotes de bolachas tão práticos, divididos em pequenas embalagens plásticas de 5 ou 6 e que permitem que as restantes se mantenham frescas e estaladiças. nas suas máquinas de lavar, só usa detergente em pastilhas, embaladas individualmente em saquetas de plástico, tão fáceis de utilizar. bebe frequentemente chá, embalado em pequenos sacos, dentro de pequenos envelopes de papel. preocupada com a estética da sua figura, todos os dias substitui uma das refeições por uma barra de cereais que retira cuidadosamente da embalagem de plástico colorido e com design atraente e periodicamente renovado. de formação humanista, indigna-se com o estado do mundo, as guerras e os problemas ambientais.

domingo, março 30, 2008

simpsenigma


desenho: adam simpson, 2004. sem título. desconcertante, é um dos adjectivos que me ocorre quando olho para os desenhos deste artista gráfico. mensagens não lineares, piscares de olho à complexidade da natureza humana. parece-nos que entendemos a mensagem, mas não conseguimos traduzi-la integralmente por palavras. o site de adam simpson, onde cheguei via (non) 2, merece uma visita demorada. fico curioso de saber a vossa (tentativa de) interpretação do desenho acima.

quinta-feira, março 27, 2008

human zoo

será esta a perfeita imagem da humanidade? cada um na sua ilha, falando a sua própria linguagem, permanentes monólogos autistas?

imagem: human zoo, adam simpson

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

ratos e homens

"- o que eu digo não tem importância, entende? seja como for, você não se lembrará. muitas vezes vi isso... um homem que fala com outro e não se importa se o outro escuta ou compreende. a questão é falar, ou então ficar calado, sem falar. não há diferença, nenhuma diferença. (...) george pode dizer-lhe qualquer disparate, é o mesmo. o caso é falar. o caso é estar com outra pessoa. isso é tudo. (...) você tem george. sabe que ele voltará. mas imagine se não tivesse ninguém. imagine se não pudesse ir ao quarto dos peões jogar às cartas por ser negro. (...) imagine que tinha que ficar aqui sentado, a ler, a ler. os livros não servem. um homem precisa de alguém, alguém que esteja perto. ficamos como loucos quando não temos ninguém. (...) uma pessoa fica aqui sentada de noite, a ler livros, ou a pensar ou qualquer coisa assim... às vezes, ficamos a pensar e não temos ninguém que diga sim ou não. quando vemos alguma coisa, não sabemos se está certo ou errado. não podemos perguntar ao outro se viu também. não podemos falar. não temos com quem discutir. tenho visto muitas coisas aqui. e eu não estava bêbado. não sei se estava a dormir... se tivesse um companheiro comigo, ele podia dizer se eu estava a dormir e tudo ficava bem. mas não sei..."


ratos e homens de john steinbeck, publicado pela primeira vez em 1937, é um soco no estômago que se devora em pouco mais de uma hora. um fresco do realismo habitado por personagens consistentes, um texto cinematográfico de onde se desprendem sentimentos tão comuns como a amizade, a solidão e o ensejo de uma vida digna. há livros que não envelhecem com o passar dos anos e este é, certamente, um deles.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

gente vulgar

VI

a vinda de alberto ao mundo foi tudo menos casual. filho tardio de um casal de classe média com profissões muito absorventes, o seu nascimento foi planeado ao mínimo pormenor. sendo filho único, depressa compreendeu que era à sua volta que tudo naquela casa girava. habituado ao show-off e a não dar ouvidos a ninguém desde a mais tenra idade, habituado a ser escutado com ar embevecido pelos seus pais de cada vez que opinava, habituado a encarar o mundo como um palco para a sua grandiosa existência onde todos os outros não passavam de personagens secundárias, quando criou um blog optou por não permitir comentários.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

und3rmúsica #7 o homem das cidades

há muito tempo que eu queria postar isto aqui. por várias razões. primeiro, porque gosto muito, depois porque publicar pessoa no blog projecta assim uma imagem a modos que bué intelectual, finalmente, porque o projecto wordsong é das coisas mais interessantes que se fazem por cá. depois de abordarem a poesia de al berto num primeiro trabalho, lançaram-se na aventura de adaptar pessoa (o fernando e a sua desmultiplicação caleidoscópica) ao formato canção/música. o resultado é uma mistura de música e palavras que se aproxima bastante do casamento perfeito, editado no álbum pessoa de 2006. o homem das cidades foi adaptado do guardador de rebanhos de alberto caeiro. gosto particularmente destas palavras.




a nossa alma e o céu...


ontem à tarde um homem das cidades falava à porta da estalagem.
falava comigo também
falava da justiça e da luta para haver justiça
e dos operários que sofrem.
e do trabalho constante e dos que têm fome,
e dos ricos, que só têm costas para isso


e, olhando para mim viu-me lágrimas nos olhos
e sorriu com agrado, julgando que eu sentia
o ódio que ele sentia e a compaixão
que ele dizia que sentia


mas eu mal o estava ouvindo
que me importam a mim os homens
e o que sofrem ou supõem que sofrem?
todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,


quer para fazer bem quer para fazer mal.
a nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
querer mais é isto perder e infeliz ser


se às vezes eu digo que as flores sorriem
e se eu disser que os rios cantam
não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
e cantos no correr dos rios...
é porque assim faço mais sentir aos homens falsos
a existência verdadeiramente real das flores e dos rios

quinta-feira, janeiro 17, 2008

momento emo

parece que o post anterior foi o meu momento emo (lê-se imou). descobri, em conversa com os meus filhos, que parte dos adolescentes actuais é designada como imous. surge a designação por encurtamento da palavra inglesa emotional. emo, de emotional people. depois dos hippies, dos freaks, dos punks, dos urbanodepressivos, dos neoromânticos, dos betos, dos grunges, dos góticos, dos dreads e de todas as variantes, cruzamentos e reciclagens, temos também os emos. têm farda e maquilhagem próprias como código de identificação do grupo. serei um eterno adolescente?

quarta-feira, janeiro 16, 2008

palavras

palavras. apetecia-me encher este blog de palavras. as palavras com que penso, as palavras com que me rio de um mundo que não consigo levar a sério para não transportar aos ombros todo o peso que uma reflexão séria acarretaria. uma reflexão sobre o homem, esse bicho maldito que recusa a sua condição de bicho, maravilha e aberração. temos que ser assim? cegos, não enxergando um palmo à frente do nosso umbigo?
palavras. apetecia-me encher este blog com todos os pensamentos que me ocorrem nos momentos mais inesperados do dia. mesmo os mais inconfessáveis, para lavar os cantos mais recondidos do meu eu. os mais calorosos, para gritar ao mundo que sou ser sensível e que canto, que rio, me maravilho, mas também choro. abrir as mãos em torrente e deixar escorrer sobre o teclado toda a complexidade que cabe dentro de um ser humano, que se preocupa em ser e manter-se apenas, também e principalmente isso: humano.
mas a blogosfera é espaço de bicho-homem, com todas as vicissitudes e toda a feira de vaidades que a criatura sempre arrasta atrás de si. e temos que compor a personagem que por
aqui habita. não se anda nu na blogosfera, como não se anda nu fora dela. ensaiam-se poses, práticas, defendem-se imagens, retocam-se posturas. mesmo assim, apetecia-me encher este blog de palavras.

terça-feira, janeiro 08, 2008

gente vulgar

V

joão e bernardo fizeram todo o seu percurso escolar nos mesmos estabelecimentos e por várias vezes nas mesmas turmas. não se infira daqui que se tornaram bons amigos ou companheiros, muito pelo contrário, sempre estiveram em campos opostos. por educação ou por opção, bernardo investiu todos os seus esforços em ser bom aluno, bem educado, seguindo trilhos trilhados por outrém, encaixando naquilo que se esperava dele. joão, pelo contrário, cresceu livre de pressões ou não as assumiu nem lhes deu importância, o que vai dar exactamente ao mesmo lugar. o que joão tinha de "cool" e popular, bernardo tinha de "weirdo" e introvertido. bernardo sempre foi, aliás, um dos alvos preferidos dos gozos e escárnios do grupo de joão e amigos, gozos esses que amiúde adquiriam contornos de enxovalhamento. terminado o secundário, seguiram percursos independentes sem qualquer ponto de contacto. os seus caminhos voltaram a cruzar-se quando joão, no seu primeiro dia como porteiro do edifício da administração de uma grande multinacional, reconheceu o antigo colega de escola na figura de um dos assessores do conselho de administração.

domingo, janeiro 06, 2008

aleluia, fui ao cinema ver um bom filme


não somos americanos, mas são nossos também todos estes personagens que povoam a história da formação do país que melhor soube exportar a sua cultura, a sua história, os seus mitos. este é um filme sofisticadamente crú, filmado com a magia dos grandes espaços. a fotografia deslumbra, a música de nick cave e warren ellis empresta outra dimensão ao todo, as interpretações são irrepreensíveis. um vazio moral a percorrer todo o enredo, apenas o medo, o instinto, o jogo da sobrevivência. homens que vivem jogos impiedosos, de cujas regras fazem parte a crueldade e o sangue frio. nenhuma identificação à partida, e no entanto, são homens feitos da mesma matéria que nós próprios. encerramos em nós também tudo aquilo? pseudofilosofias à parte, é de bom cinema que se trata. um objecto estético cuidado e de muito agradável consumo.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

volta 2007, estás perdoado

eles matam-se no quénia, matam-se no paquistão, continuam a matar-se no iraque, na palestina, aqui e ali, anula-se o lisboa-dakar. a cereja no topo é a perspectiva de um novo canal de televisão generalista a fazer concorrência à sic(k), tvI (de irritante) e rtp. assim, de chofre, para nos retirar imediatamente a ilusão de que algo mudou para melhor.

domingo, dezembro 23, 2007

a mais antiga celebração do mundo



solstício de inverno. talvez a principal razão para o cristianismo ter fixado a data do nascimento de jesus no início do inverno. a verdade histórica aponta para outras épocas do ano, nunca para dezembro. a origem dos ritos pagãos ligados ao solstício perde-se nos primórdios da humanidade. estas coisas fascinam-me.

sábado, dezembro 22, 2007

gente vulgar

IV

desde a mais tenra infância, paula evidenciou um pendor especial para o perfeccionismo. uma carreira académica brilhante, um esmero na sua imagem e uma eficácia invulgar em todos os pormenores conduziram-na a um lugar de topo na administração de uma grande empresa. tradicionalista e conservadora, cuidava de todos os pormenores da sua vida de modo a que nada falhasse. chegada a casa, estenuada, deixou-se cair na chaise-longue. tinha sido azar a sua empregada adoecer em vésperas de natal, tendo ela própria que fazer as compras para a consoada. por momentos relembrou a luta. relembrou a imagem da última couve portuguesa que restava no hipermercado em trânsito entre o expositor e o carrinho de outra cliente, a breve troca de palavras com a outra senhora, a recusa da outra em lhe ceder a couve, o saco de plástico que continha a couve a esticar-se e a rasgar-se puxado pelas duas, a couve a rebolar pelo chão, as duas jogando-se ao chão para apanharem a couve, a intervenção dos funcionários do estabelecimento. fazendo uso do seu famoso poder de argumentação conseguira convencê-los de que tinha sido ela a primeira a pegar na couve e a outra a tentar roubar-lha. olhou, vitoriosa, as folhas de couve que saiam para fora do saco de plástico que jazia a seus pés. agora sim, o seu natal iria ser perfeito.

terça-feira, dezembro 18, 2007

gente vulgar

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I

iniciada na nobre profissão do secretariado num tempo em que o domínio do papel químico e da máquina de escrever eram atributos apreciados, berta acredita piamente que os computadores são dotados de vontade própria. inúmeras vezes relata aos seus superiores episódios em que, apesar de ter repetido escrupulosamente a mesma sequência de comandos, a máquina lhe responde de forma bem diversa.


II

cristovão teve uma educação espartana em que o rigor e o autocontrolo não foram sugestões, foram antes exigências. habituado a repetir processos rigorosamente controlados por seu pai, ainda hoje é sempre com a mesma frase que pede a moeda aos condutores dos veículos que ajuda a estacionar. o autocontrolo, incorporado na sua personalidade durante a primeira infância, ajuda-o a respeitar os limites do seu território e a não riscar a tinta dos carros de quem lhe nega a recompensa e, assim, lhe atrasa a próxima dose.


III

para sobreviver sem sofrer, maria foi acumulando, a cada novo acontecimento adverso, a sensação de que tinha que calar o seu eu sensível. a dada altura, já não sabe bem precisar quando, transformou a sensação em certeza e endureceu a sua relação com o mundo, com os outros, com a própria existência. desde então um tom amargo contamina-lhe os dias. não tem noção do desagrado que provoca à sua volta, assim como não sabe das várias alcunhas que os colegas lhe inventaram, anaconda não sendo das mais ofensivas.