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quinta-feira, junho 19, 2008

sai uma dose de prozac para aquele país lá ao fundo da europa

adeus euro, adeus scolari. amanhã o país vai acordar e lembrar-se da crise, dos preços dos combustíveis e dos alimentos, de toda a realidade que é deixada para trás de cada vez que a selecção tem êxito. vai ser um país de ressaca, tristonho e acabrunhado, sem fé no futuro nem nos políticos. sem força para dar a volta por cima. o ano escolar a acabar, este tempo de verão que convida à preguiça, a silly season a começar (sim, eu sei que neste país nunca acaba). como será possível pôr este país a produzir? modernizá-lo, trazê-lo para o vigésimo primeiro século da era cristã, actualizá-lo? esta semana o meu filho mais velho fez exame de português para acesso ao ensino superior. a prova de exame serve de exemplo do que uma certa intelectualidade atávica representa. camões, memorial do convento e padre antónio vieira. passado, passado, passado. as glórias dos descobrimentos, as glórias dos descobrimentos. já sei que me vão dizer que camóes é importantíssimo, que o memorial do convento é uma obra esplêndida e que vieira foi um humanista de se lhe tirar o chapéu. mas eu vejo as coisas de outra maneira. enquanto a cultura portuguesa de maior relevo não for a actual, enquanto o orgulho pátrio não for no país que temos agora, no povo que somos agora, bem podemos protestar contra a crise, dizer que a culpa é sempre dos outros, que nunca sairemos dela. bem podemos ficar à espera do cadáver pútrido do d. sebastião que um dia chegará numa manhã poluída. sair dos gabinetes e vir para o terreno, acabar com o sucesso fácil e momentâneo, com as vaidades e ostentações sociais, com o cada vez maior fosso entre os que muito têm e os que não têm quase nada, olharmos uns para os outros, olhos nos olhos, e sentirmo-nos parte de um povo , de uma sociedade, de uma comunidade, essa é a difícil tarefa que temos pela frente. arregaçar as mangas e trabalhar, organizar, produzir mais com menos esforço. marcar mais golos com menos tempo de posse de bola e com menos floreados. jogadas certeiras e organizadas. é assim que se ganham os jogos.

sábado, maio 03, 2008

society, crazy and deep

há muito tempo que não me interessava a sério por uma música só com voz e guitarra acústica, mas este society, composto por jerry hannan e interpretado por eddie vedder para a banda sonora de into the wild, filme de sean penn, relembrou-me a beleza simples e cativante que a harmonia, entre uma voz humana bem modelada e o ressoar das cordas de uma guitarra, pode proporcionar. principalmente se as palavras são cheias de significado e o ritmo nos embala em suaves movimentos. se para além de tudo isto for associado um toque de nostalgia e lamento, então temos canção para ouvir repetidamente, ir deixando que ela se entranhe progressivamente até lhe conhecermos cada nuance do canto, cada timbre, cada variação no desenrolar da sequência de acordes. não vi o filme para o qual a canção foi gravada, por isso as palavras extravasam para fora do contexto original. é curioso que circulem, no youtube, vídeos onde estas palavras surgem associadas a imagens de guerra no iraque. numa época em que a maior parte das canções são ocas, sabe mesmo muito bem ouvir esta.

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quinta-feira, maio 01, 2008

a história das coisas

várias verdades inconvenientes. embora seja de origem norteamericana, aplica-se a nós como uma luva. são 21 minutos didácticos de reflexão sobre o nosso sistema actual de consumo, que acaba por condicionar toda a organização social. e as relações internacionas também. poderão dizer que não é bem assim, que as ideias vinculadas não estão totalmente certas, mas parece-me bastante aproximado. desapaixonado, pragmático e não panfletário. bom para reflectir neste 1º de maio, que se quer dos trabalhadores. e das pessoas por detrás desses trabalhadores. algures na história houve uma preversão do sentido do trabalho. quando é que deixámos de trabalhar para a comunidade e passámos a trabalhar para alguns indivíduos? quando é que os pratos da balança se desequilibraram? este documentário devia ser mostrado nas escolas aos nossos adolescentes, seguido de conversa alargada, debate. mas quem controla hoje em dia a escola e as ideias que devem ou não devem ser vinculadas? interessa mesmo fazer das gerações futuras seres conscientes, informados, participantes, ou interessa esconder parte da verdade, parte do sistema? o velho das botas, que caiu da cadeira há uns anos atrás, é que dizia qualquer coisa do género: quanto mais culto um povo, mais difícil de governar.




agradeço à idadedapedra por me ter conduzido até ao vídeo.

sábado, abril 26, 2008

rábula do dia 26 de abril de 2018

liberdade, pois, mas as nossas sociedades apresentam-nos agora desafios que não se colocavam em 1974. aos poucos vamos trocando a liberdade pela segurança. com o advento do trusted computing, que algumas empresas de informática se preparam para introduzir no mercado daqui a 2 ou 3 anos, e com o cruzamento das bases de dados, não me parece que esta rábula, que recebi por e-mail, seja de todo impossível daqui a 10 anos. novos desafios para quem acredita na liberdade como valor a defender.



- telefonista: telepizza, boa noite!

- cliente: boa noite, quero encomendar pizzas...

- telefonista: pode dar-me o seu n.i.n.?

- cliente: sim, o meu número de identificação nacional é o 6102 1993 8456 5463 2107.

- telefonista: obrigada, sr. lacerda. o seu endereço é na avenida paes de barros, 19, apartamento 11, e o número do seu telefone é o 21549 4236, certo? o telefone do seu escritório na liberty seguros, é o 21 574 52 30 e o seu telemóvel é o 96 266 25 66, correcto?

- cliente: como é que conseguiu todas essas informações?

- telefonista: porque estamos ligados em rede ao grande sistema central.

- cliente: ah, pois, é verdade! quero encomendar duas pizzas: uma quatro queijos e outra calabresa...

- telefonista: talvez não seja boa ideia...

- cliente: o quê...?

- telefonista: consta na sua ficha médica que o senhor sofre de hipertensão, diabetes e tem a taxa de colesterol muito alta. além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas perigosas para a saúde.

- cliente: claro! tem razão! o que é que sugere?

- telefonista: por que é que não experimenta a nossa pizza superlight, com tofu e rabanetes? o senhor vai adorar!

- cliente: como é que sabe que vou adorar?

- telefonista: o senhor consultou a página 'receitas gulosas com soja' da biblioteca municipal, no dia 15 de janeiro, às 14:27 e permaneceu ligado à rede durante 39 minutos. daí a minha sugestão...

- cliente: ok, está bem! mande-me então duas pizzas tamanho familiar!

- telefonista: é a escolha certa para o senhor, a sua esposa e os vossos quatro filhos, pode ter a certeza.

- cliente: quanto é?

- telefonista: são 49,99.

- cliente: quer o número do meu cartão de crédito?

- telefonista: lamento, mas o senhor vai ter que pagar em dinheiro. o limite do seu cartão de crédito foi ultrapassado.

- cliente: tudo bem. posso ir ao multibanco levantar dinheiro antes que cheguem as pizzas.

- telefonista: duvido que consiga. a sua conta à ordem está com o saldo negativo.

- cliente: meta-se na sua vida! mande-me as pizzas que eu arranjo o dinheiro. quando é que entregam?

- telefonista: estamos um pouco atrasados. serão entregues em 45 minutos. se estiver com muita pressa pode vir buscá-las, se bem que transportar duas pizzas na sua moto não seja lá muito aconselhável. além de ser perigoso...

- cliente: mas que história é essa? como é que sabe que eu vou de moto?

- telefonista: peço desculpa, mas reparei aqui que não pagou as últimas prestações do carro e ele foi penhorado. mas a sua moto está paga e então pensei que fosse utilizá-la.

- cliente: chiça.......!!!!!!!!!

- telefonista: gostaria de pedir-lhe para não ser mal educado... não se esqueça de que já foi condenado em Julho de 2006 por desacato em público a um agente da autoridade.

- cliente: (silêncio).

- telefonista: mais alguma coisa?

- cliente: não. é só isso... não. espere... não se esqueça dos 2 litros de coca-cola que constam na promoção.

- telefonista: lamento, mas o regulamento da nossa promoção, conforme citado no artigo 095423/12, proíbe a venda de bebidas com açúcar a pessoas diabéticas...

- cliente: aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!! vou atirar-me pela janela!!!!!

- telefonista: (ri-se) e torcer um pé? não se esqueça que o senhor mora no rés-do-chão...!

quinta-feira, abril 17, 2008

trivia

a acção passa-se numa pequena agência bancária de bairro. hora do almoço, aguardo para falar com o meu gerente de conta que se encontra ocupado com outro cliente. para matar o tempo vou observando as pessoas que fazem fila para serem atendidas na única caixa de que a agência dispõe. não muitas, 4 ou 5 a cada momento. os sujeitos do costume, com formas, posturas e estilos variados. num dado momento ouço, todos os presentes ouvem, as instruções dadas por um cliente, sem reserva de intimidade. queria o dito cliente depositar um cheque no valor de vinte e tal mil euros. mas queria que o depósito fosse efectuado sem ficar o registo do depósito do cheque e frisou-o várias vezes com um volume sonoro de quem não tem nada a esconder. queria, assim, que em vez de uma operação fossem efectuadas duas simultâneamente. primeiro levantaria o cheque em numerário e acto contínuo um depósito desse numerário na sua conta. o que ele não queria era que ficasse o registo do depósito do cheque. certamente uma fugazita aos impostos, daquelas sem importância, e que, na óptica do prevaricador, toda a gente faz e para a qual não é necessária nenhuma reserva de intimidade.

quinta-feira, março 27, 2008

human zoo

será esta a perfeita imagem da humanidade? cada um na sua ilha, falando a sua própria linguagem, permanentes monólogos autistas?

imagem: human zoo, adam simpson

sexta-feira, março 21, 2008

fascinante

como não sou professor, nem de facto nem de bancada, nesta história da professora, da miúda histérica e do seu telemóvel, que hoje (ontem) dominou grande parte da blogosfera e dos telejornais, há outros aspectos que me interessam. o primeiro é a maneira como o fenómeno se difundiu. primeiro o vídeo foi exposto no youtube pelo colega da histérica que filmou os acontecimentos, depois alguns autores de blogs pegaram no assunto, avisados por e-mail, depois as páginas online dos orgãos de comunicação social, e só no fim as televisões. um circuito cada vez mais frequente, a provar o imenso poder destes dois novos (?) canais de difusão: youtube e blogosfera. o segundo aspecto que me interessa, pelo menos ao sociólogo de bancada que habita em mim, é a enorme quantidade de comentários que os posts sobre o assunto, e as notícia nos sites dos orgãos de comunicação social, geraram. toda a gente teve uma opinião sobre o assunto, toda a gente soube como é que a situação se resolveria, quais os culpados e quais as causas profundas do acontecido. menos eu, que gosto de continuar a cultivar a humildade. em menos de 24 horas, este povo produziu vários milhares de opiniões. a análise detalhada desses comentários, daria uma excelente tese de doutoramento. em sociologia. terceiro aspecto, o vídeo original foi retirado do youtube a meio da tarde pelo aluno que o havia exposto, provavelmente por se ter apercebido do enorme impacto negativo que o fenómeno estava a ter. tarde demais. as imagens já estavam no domínio público e poucos minutos depois já o vídeo estava reposto em pelo menos 10 localizações do youtube, nos videos sapo e em várias páginas dos media. o que prova que uma vez exposta uma imagem na rede, ela se torna virtualmente inapagável. admirável e fascinante mundo novo.

domingo, março 16, 2008

a liberdade do estado acaba onde começa a liberdade individual

ainda sobre os piercing. a ideia não é apenas proibir a sua aplicação em menores. o projecto de lei prevê também a total proibição, em miúdos e graúdos, nalgumas localizações, a saber, cavidade bucal e genitalia. aqui reside o maior absurdo da questão. o estado sente-se no direito de controlar a maneira como adornamos o corpo e isto é muito grave. os argumentos que sustentam esta ideia não os conheço, mas não consigo imaginar nenhum que seja irrefutável. é sabido que algumas localizações têm como consequência algumas lesões graves que exigem intervenção dos serviços de saúde. também a obesidade tem consequências graves, também a vida sedentária tem consequências graves, o consumo regular de fast-food tem consequências graves, o consumo imoderado de álcool tem consequências graves, os desportos radicais podem ter consequências graves. caminhamos para uma ditadura da saúde, em que todas as práticas potencialmente perigosas são proibidas? os nossos corpos vão deixar de nos pertencer? temos o dever de os manter impolutos, ao serviço do crescimento do p.i.b. e sem sobrecarregarmos o serviço nacional de saúde? irá surgir uma polícia de saúde que nos vai entrar pela casa adentro para controlar o que ingerimos, como utilizamos o nosso corpo? é demasiado absurdo para sequer ter vontade de brincar sobre o assunto.

segunda-feira, março 03, 2008

portugueses que gostariam de ser espanhóis

é um tema recorrente na sociedade portuguesa. embora actualmente a imprensa ande calma, volta e meia encontro um post na blogosfera que expressa a ideia de que se fossemos espanhóis estariamos muito melhor, e que nos deviamos fundir com o país de nuestros hermanos. invejinha da mais pura, a galinha do vizinho é sempre melhor do que a minha, etc, etc. embora o conceito tenha o dom de me irritar solenemente, confesso que, também eu, tenho inveja dos espanhóis. tenho inveja do sentimento arriba españa, de serem capazes de se organizarem, de cumprir horários, de terem o conceito de hierarquias, de saberem distinguir o trabalho do conhaque, de serem activos civicamente. tudo atributos que por cá rareiam. os portugueses que gostariam de ser espanhóis, não querem realmente ser espanhóis. querem apenas que venham de fora organizar aquilo que nós não somos capazes de organizar, querem ter os ordenados ao nível dos espanhóis mas continuarem a não pensar em produzir, muito menos produzir como os espanhóis. querem continuar a utilizar o local de trabalho como um local de convívio onde, após um longo bocejo, de vez em quando se trabalha um bocadinho. querem continuar a dizer mal e a apontar o dedo a tudo e a todos, sem serem capazes de olhar criticamente para o espelho. os portugueses que gostariam de ser espanhóis, seriam os primeiros a depois atribuir as culpas aos espanhóis por isto não funcionar e sermos a região mais pobre de espanha. os portugueses que gostariam de ser espanhóis, seriam os primeiros a contestar terem um espanhol como superior hierárquico e os primeiros a chamar-lhe fascista (pelas costas, claro), quando ele lhes exigisse o trabalhinho feito a tempo e horas, ou lhes recordasse que estavam num local de trabalho e não de convívio. os portugueses que gostariam de ser espanhóis são pequeninos e invejosos, mesquinhos e preguiçosos. e esquecem-se que nada os obriga a ficar por cá a atrapalhar isto, espanha fica mesmo aqui ao lado, já nem têm que apresentar o b.i. quando atravessarem a fronteira.

sábado, fevereiro 16, 2008

balanço patriótico

nas anotações à sua peça de teatro "pátria", publicada em 1896, guerra junqueiro escreveu frases estranhamente actuais. 112 anos depois. para que não se pense que é invenção do und3rblog, pode-se conferir com o texto original, disponível em e-book no site do projecto gutemberg. faço minhas (quase) todas as suas palavras. reza assim:

"Balanço patriótico:

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúsio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, bêsta de nora, agùentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalépsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, emfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional,--reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta;
(...)
Uma burguesia, cívica e políticamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provêm que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos
(...)
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; êste criado de quarto do moderador; e êste, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre,--como da roda duma lotaria;
A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer dela um saca-rôlhas;
Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar (...) meia libra ou uma gota de sangue, vivendo ambos do mesmo utilitarismo scéptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguêm deu no parlamento,--de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar;
(...)
Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante,--o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários;
(...)
E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares,--_tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc. etc.
(...)
A burguesia liberal, mercieiros-viscondes, parasitagem burocrática, bacharelice ao piano, advogalhada de S. Bento, _morgadinhas_, _judias_, sinos, estradas, escariolas, estações, inaugurações, locomotivas (religião do Progresso, como êles diziam), todo êsse mundo de vista baixa, moralmente ordinário e intelectualmente reles,
(...)
O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroismo, capaz de cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante. Ruge com Passos Manuel, grunhe com D. João VI. É de raça, é de natureza. Foi sempre o mesmo. A história pátria resume-se quási numa série de biografias, num desfilar de personalidades, dominando épocas. Sobretudo depois de Alcacer. Povo messiânico, mas que não gera o Messias. Não o pariu ainda. Em vez de traduzir o ideal em carne, vai-o dissolvendo em lágrimas. Sonha a quimera, não a realiza.
(...)
Sei muito bem que o estadista não é o santo, que o grande político não é o mártir, mas sei tambêm que toda a obra governativa, que não fôr uma obra de filosofia humana, resultará em geringonça anecdótica, manequim inerte, sem olhar e sem fala.
(...)
A ductilidade, quási amorfa do carácter português, se torna duvidosas as energias colectivas, os espontâneos movimentos nacionais, facilita, no entanto, de maneira única, a acção de quem rege e quem governa. Cera branda, os dedos modelam-na à vontade. Um grande escultor, eis o que precisamos.
Há, alêm disso, bem no fundo dêste povo um pecúlio enorme de inteligência e de resistência, de sobriedade e de bondade, tesoiro precioso, oculto há séculos em mina entulhada. É ainda a sombra daquele povo que ergueu os Jerónimos, que escreveu os Lusíadas. Desenterremo-la, exumemo-la. Quem sabe, talvez revivesse! (...)"

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

sem comentários, é desta que eu crio a etiqueta "filhos da puta"

“um trabalhador que esteja cansado física ou psicologicamente – porque está mais velho, porque tem problemas familiares, porque trabalhar naquela empresa não era exactamente o que pretendia ou porque se desinteressou do trabalho – deve poder ser despedido por justa causa”, defendeu em conversa com o correio da manhã gregório rocha novo, membro da direcção da c.i.p.

via a origem das espécies

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

que eu me lembre, para haver um país tem que haver um povo e um território. território, temos...

francisco van zeller, uma das figuras mais simpáticas, mais democráticas e menos gananciosas da sociedade portuguesa, entende que os despedimentos não podem ser só provocados por inadaptação ou casos disciplinares. as confederações patronais da indústria e do comércio querem que as empresas passem a poder despedir trabalhadores quando pretendam renovar os seus quadros de pessoal. "não raro, as empresas estão apenas carecidas de trabalhadores diferentes e não de menos trabalhadores. é essa renovação que também se tem de possibilitar", defende a confederação da indústria portuguesa. em minha opinião, muitas empresas benefeciariam muito mais se lhes renovassem os dirigentes, substituindo-os por pessoas mais jovens, mais bem formadas moralmente, com melhores conhecimentos técnicos de gestão de recursos humanos e menos gananciosos, que não desbaratassem o capital das empresas em vidas desproporcionalmente luxuosas. a pretensão destes senhores é, em si mesma, preocupante. como se as empresas não tivessem responsabilidades éticas ou sociais. o objectivo é deixar os funcionários completamente à mercê das chefias e patrões, promovendo o culambismo, as formas encapotadas de semiescravatura e os pequenos e grandes delatores. mas mais preocupante ainda são os comentários que os leitores do público deixaram na respectiva caixa. muitos (funcionários públicos, presume-se) regozijam-se com esta pretensão da c.i.p., como vingança pelos ataques que os trabalhadores das estruturas privadas têm feito, de alguns anos a esta parte, aos pretensos previlégios da função pública. podem ler-se pérolas como "criticaram os funcionários públicos? acharam bem tudo aquilo que nos têm feito? pois esperem que a vingança vai servir-se GELADA." ou "erguem-se agora as virgens ofendidas, trabalhdores do sector privado, quando o alvo foi a função pública recomendavam: mudem de emprego. chegou a hora da função pública lhes dizer: não estão satisfeitos, EMIGREM." como funcionário público que sou, não posso deixar de perceber a origem deste desejo de "vingança", mas estas fracturas sociais não auguram nada de bom para este povo. mas há mais. alguns leitores mais catastróficos já dão a pretensão da c.i.p. como lei, como dado adquirido, e aproveitam para desancar no governo com toda a veemência. às vezes torna-se difícil chamar a isto um país...

terça-feira, janeiro 22, 2008

patchwork

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pressure



thing thing thing thing think thing as

pre pre pre pressure sure sure sure

mind mind mind mind mind mind mind mind mind

domingo, janeiro 20, 2008

e você? já tem o seu certificado de qualidade?

genial luís afonso no público de hoje. no cartaz pode ler-se "atenção cidadãos: devem certificar-se que estão dentro dos parâmetros standard antes de se submeterem ao controlo de qualidade. não nos responsabilizamos por eventuais danos físicos ou psicológicos". é assim que o sistema nos quer, todos direitinhos, perfilados, iguaizinhos, consumindo as mesmas coisas, obedientes e contentes. a esses, os cidadãos normalizados, o sistema recompensa, oferecendo-lhes uma vida préprogramada e dando-lhes um certificado de qualidade. a massa amorfa que deve produzir sem questionar e consumir sem questionar também. em nome do santo crescimento da economia (que é como quem diz, do crescimento dos ganhos dos donos do dinheiro). da defesa dos tradicionais valores ocidentais: liberdade (para consumir), igualdade (no consumo), fraternidade (todos de mãos dadas a consumir). os outros, os não normalizados, ficam por sua própria conta e risco, à margem, logicamente. lesões físicas ou psicológicas? paciência, tivessem aceitado a normalização.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

momento emo

parece que o post anterior foi o meu momento emo (lê-se imou). descobri, em conversa com os meus filhos, que parte dos adolescentes actuais é designada como imous. surge a designação por encurtamento da palavra inglesa emotional. emo, de emotional people. depois dos hippies, dos freaks, dos punks, dos urbanodepressivos, dos neoromânticos, dos betos, dos grunges, dos góticos, dos dreads e de todas as variantes, cruzamentos e reciclagens, temos também os emos. têm farda e maquilhagem próprias como código de identificação do grupo. serei um eterno adolescente?

quarta-feira, janeiro 16, 2008

palavras

palavras. apetecia-me encher este blog de palavras. as palavras com que penso, as palavras com que me rio de um mundo que não consigo levar a sério para não transportar aos ombros todo o peso que uma reflexão séria acarretaria. uma reflexão sobre o homem, esse bicho maldito que recusa a sua condição de bicho, maravilha e aberração. temos que ser assim? cegos, não enxergando um palmo à frente do nosso umbigo?
palavras. apetecia-me encher este blog com todos os pensamentos que me ocorrem nos momentos mais inesperados do dia. mesmo os mais inconfessáveis, para lavar os cantos mais recondidos do meu eu. os mais calorosos, para gritar ao mundo que sou ser sensível e que canto, que rio, me maravilho, mas também choro. abrir as mãos em torrente e deixar escorrer sobre o teclado toda a complexidade que cabe dentro de um ser humano, que se preocupa em ser e manter-se apenas, também e principalmente isso: humano.
mas a blogosfera é espaço de bicho-homem, com todas as vicissitudes e toda a feira de vaidades que a criatura sempre arrasta atrás de si. e temos que compor a personagem que por
aqui habita. não se anda nu na blogosfera, como não se anda nu fora dela. ensaiam-se poses, práticas, defendem-se imagens, retocam-se posturas. mesmo assim, apetecia-me encher este blog de palavras.

terça-feira, janeiro 08, 2008

gente vulgar

V

joão e bernardo fizeram todo o seu percurso escolar nos mesmos estabelecimentos e por várias vezes nas mesmas turmas. não se infira daqui que se tornaram bons amigos ou companheiros, muito pelo contrário, sempre estiveram em campos opostos. por educação ou por opção, bernardo investiu todos os seus esforços em ser bom aluno, bem educado, seguindo trilhos trilhados por outrém, encaixando naquilo que se esperava dele. joão, pelo contrário, cresceu livre de pressões ou não as assumiu nem lhes deu importância, o que vai dar exactamente ao mesmo lugar. o que joão tinha de "cool" e popular, bernardo tinha de "weirdo" e introvertido. bernardo sempre foi, aliás, um dos alvos preferidos dos gozos e escárnios do grupo de joão e amigos, gozos esses que amiúde adquiriam contornos de enxovalhamento. terminado o secundário, seguiram percursos independentes sem qualquer ponto de contacto. os seus caminhos voltaram a cruzar-se quando joão, no seu primeiro dia como porteiro do edifício da administração de uma grande multinacional, reconheceu o antigo colega de escola na figura de um dos assessores do conselho de administração.