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quarta-feira, maio 14, 2008

cinco éfes

na segunda foi o dia do futebol, com o anúncio dos seleccionados. na terça o dia de fátima e dos milhares de peregrinos. hoje deveria ter sido o dia do fado, para se cumprirem os 3 éfes fatídicos que defeniram (definem?) portugal. mas em vez disso, apanhámos com um quarto éfe, de fumo. sua excelência o primeiro ministro foi apanhado a fumar no voo lisboa-caracas. ó escandaleira, aqui d'el rei! a polémica estalou, as televisões dedicam reportagens alargadas ao assunto, os jornalistas entram em ebulição frenética, todos os jornais online escrevem sobre o assunto, os comentários do povo são às centenas. é bom viver num paísinho sem problemas, com muitos gigas de memória ram disponíveis para se dedicar de imediato a assunto tão premente. para rematar a questão, o ilustre fumador, que tinha conseguido o meu respeito ao revelar um lado rebelde e prevaricador, pede desculpa e anuncia que deixou de fumar. estragou tudo. cá pra mim, o que ele devia ter feito era ter utilizado um quinto éfe e ter mandado esta gentinha toda ir-se foder.

terça-feira, abril 29, 2008

sugestões a quem de direito, que eu não sei quem é, senão escrevia-lhe directamente

certos equipamentos do meu trabalho, em vez de virem acompanhados de um guia rápido do operador em português, deveriam vir acompanhados de um guia para transformar um português num operador rápido. a minha vida ficava um poucochinho facilitada. mas o que vinha mesmo a calhar eram uns módulos de actualização neurológica para pessoal de laboratório. é que, às vezes, tenho a sensação de que os manuais de texto que leio, vindos de terras estrangeiras, são pura ficção científica.

quinta-feira, abril 17, 2008

trivia

a acção passa-se numa pequena agência bancária de bairro. hora do almoço, aguardo para falar com o meu gerente de conta que se encontra ocupado com outro cliente. para matar o tempo vou observando as pessoas que fazem fila para serem atendidas na única caixa de que a agência dispõe. não muitas, 4 ou 5 a cada momento. os sujeitos do costume, com formas, posturas e estilos variados. num dado momento ouço, todos os presentes ouvem, as instruções dadas por um cliente, sem reserva de intimidade. queria o dito cliente depositar um cheque no valor de vinte e tal mil euros. mas queria que o depósito fosse efectuado sem ficar o registo do depósito do cheque e frisou-o várias vezes com um volume sonoro de quem não tem nada a esconder. queria, assim, que em vez de uma operação fossem efectuadas duas simultâneamente. primeiro levantaria o cheque em numerário e acto contínuo um depósito desse numerário na sua conta. o que ele não queria era que ficasse o registo do depósito do cheque. certamente uma fugazita aos impostos, daquelas sem importância, e que, na óptica do prevaricador, toda a gente faz e para a qual não é necessária nenhuma reserva de intimidade.

sábado, fevereiro 16, 2008

balanço patriótico

nas anotações à sua peça de teatro "pátria", publicada em 1896, guerra junqueiro escreveu frases estranhamente actuais. 112 anos depois. para que não se pense que é invenção do und3rblog, pode-se conferir com o texto original, disponível em e-book no site do projecto gutemberg. faço minhas (quase) todas as suas palavras. reza assim:

"Balanço patriótico:

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúsio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, bêsta de nora, agùentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalépsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, emfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional,--reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta;
(...)
Uma burguesia, cívica e políticamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provêm que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos
(...)
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; êste criado de quarto do moderador; e êste, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre,--como da roda duma lotaria;
A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer dela um saca-rôlhas;
Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar (...) meia libra ou uma gota de sangue, vivendo ambos do mesmo utilitarismo scéptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguêm deu no parlamento,--de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar;
(...)
Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante,--o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários;
(...)
E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares,--_tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc. etc.
(...)
A burguesia liberal, mercieiros-viscondes, parasitagem burocrática, bacharelice ao piano, advogalhada de S. Bento, _morgadinhas_, _judias_, sinos, estradas, escariolas, estações, inaugurações, locomotivas (religião do Progresso, como êles diziam), todo êsse mundo de vista baixa, moralmente ordinário e intelectualmente reles,
(...)
O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroismo, capaz de cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante. Ruge com Passos Manuel, grunhe com D. João VI. É de raça, é de natureza. Foi sempre o mesmo. A história pátria resume-se quási numa série de biografias, num desfilar de personalidades, dominando épocas. Sobretudo depois de Alcacer. Povo messiânico, mas que não gera o Messias. Não o pariu ainda. Em vez de traduzir o ideal em carne, vai-o dissolvendo em lágrimas. Sonha a quimera, não a realiza.
(...)
Sei muito bem que o estadista não é o santo, que o grande político não é o mártir, mas sei tambêm que toda a obra governativa, que não fôr uma obra de filosofia humana, resultará em geringonça anecdótica, manequim inerte, sem olhar e sem fala.
(...)
A ductilidade, quási amorfa do carácter português, se torna duvidosas as energias colectivas, os espontâneos movimentos nacionais, facilita, no entanto, de maneira única, a acção de quem rege e quem governa. Cera branda, os dedos modelam-na à vontade. Um grande escultor, eis o que precisamos.
Há, alêm disso, bem no fundo dêste povo um pecúlio enorme de inteligência e de resistência, de sobriedade e de bondade, tesoiro precioso, oculto há séculos em mina entulhada. É ainda a sombra daquele povo que ergueu os Jerónimos, que escreveu os Lusíadas. Desenterremo-la, exumemo-la. Quem sabe, talvez revivesse! (...)"

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

sem comentários, é desta que eu crio a etiqueta "filhos da puta"

“um trabalhador que esteja cansado física ou psicologicamente – porque está mais velho, porque tem problemas familiares, porque trabalhar naquela empresa não era exactamente o que pretendia ou porque se desinteressou do trabalho – deve poder ser despedido por justa causa”, defendeu em conversa com o correio da manhã gregório rocha novo, membro da direcção da c.i.p.

via a origem das espécies

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

que eu me lembre, para haver um país tem que haver um povo e um território. território, temos...

francisco van zeller, uma das figuras mais simpáticas, mais democráticas e menos gananciosas da sociedade portuguesa, entende que os despedimentos não podem ser só provocados por inadaptação ou casos disciplinares. as confederações patronais da indústria e do comércio querem que as empresas passem a poder despedir trabalhadores quando pretendam renovar os seus quadros de pessoal. "não raro, as empresas estão apenas carecidas de trabalhadores diferentes e não de menos trabalhadores. é essa renovação que também se tem de possibilitar", defende a confederação da indústria portuguesa. em minha opinião, muitas empresas benefeciariam muito mais se lhes renovassem os dirigentes, substituindo-os por pessoas mais jovens, mais bem formadas moralmente, com melhores conhecimentos técnicos de gestão de recursos humanos e menos gananciosos, que não desbaratassem o capital das empresas em vidas desproporcionalmente luxuosas. a pretensão destes senhores é, em si mesma, preocupante. como se as empresas não tivessem responsabilidades éticas ou sociais. o objectivo é deixar os funcionários completamente à mercê das chefias e patrões, promovendo o culambismo, as formas encapotadas de semiescravatura e os pequenos e grandes delatores. mas mais preocupante ainda são os comentários que os leitores do público deixaram na respectiva caixa. muitos (funcionários públicos, presume-se) regozijam-se com esta pretensão da c.i.p., como vingança pelos ataques que os trabalhadores das estruturas privadas têm feito, de alguns anos a esta parte, aos pretensos previlégios da função pública. podem ler-se pérolas como "criticaram os funcionários públicos? acharam bem tudo aquilo que nos têm feito? pois esperem que a vingança vai servir-se GELADA." ou "erguem-se agora as virgens ofendidas, trabalhdores do sector privado, quando o alvo foi a função pública recomendavam: mudem de emprego. chegou a hora da função pública lhes dizer: não estão satisfeitos, EMIGREM." como funcionário público que sou, não posso deixar de perceber a origem deste desejo de "vingança", mas estas fracturas sociais não auguram nada de bom para este povo. mas há mais. alguns leitores mais catastróficos já dão a pretensão da c.i.p. como lei, como dado adquirido, e aproveitam para desancar no governo com toda a veemência. às vezes torna-se difícil chamar a isto um país...

domingo, janeiro 20, 2008

e você? já tem o seu certificado de qualidade?

genial luís afonso no público de hoje. no cartaz pode ler-se "atenção cidadãos: devem certificar-se que estão dentro dos parâmetros standard antes de se submeterem ao controlo de qualidade. não nos responsabilizamos por eventuais danos físicos ou psicológicos". é assim que o sistema nos quer, todos direitinhos, perfilados, iguaizinhos, consumindo as mesmas coisas, obedientes e contentes. a esses, os cidadãos normalizados, o sistema recompensa, oferecendo-lhes uma vida préprogramada e dando-lhes um certificado de qualidade. a massa amorfa que deve produzir sem questionar e consumir sem questionar também. em nome do santo crescimento da economia (que é como quem diz, do crescimento dos ganhos dos donos do dinheiro). da defesa dos tradicionais valores ocidentais: liberdade (para consumir), igualdade (no consumo), fraternidade (todos de mãos dadas a consumir). os outros, os não normalizados, ficam por sua própria conta e risco, à margem, logicamente. lesões físicas ou psicológicas? paciência, tivessem aceitado a normalização.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

ainda bem que eu vivo na província, mas mesmo assim estou um pouco enjoado

queria falar sobre a cimeira ue-áfrica, mas nem sei por onde começar. antes de mais, porque é que lhe chamaram cimeira? a palavra cimeira evoca elevação, positivismo e outros conceitos que nada têm a ver com o que aconteceu. baixeira, seria uma palavra muito mais consentânea com a realidade. uma abordagem séria seria referir, à semelhança do que já muita gente fez, o facto ridículo que constituiu ver alguns dos maiores malfeitores do mundo a serem recebidos com subserviência. os 80 quartos que a delegação angolana ocupou num dos melhores e mais caros hotéis da capital também me parecem dignos de nota. com tanta hipocrisia à solta, lisboa não foi certamente um lugar muito recomendável durante o fim de semana. ver a democracia europeia a enxovalhar-se para garantir os mercados africanos foi um triste e degradante espectáculo. já hoje, a imprensa chinesa, que como toda a gente sabe é isenta e independente, anunciava o fracasso da cimeira. claro que isto não tem nada a ver com os interesses chineses em áfrica. outra imprensa independente, a do zimbabué, anunciava a maneira heróica como o seu querido líder se comportou e como rechaçou os argumentos e a contestação dos malditos racistas que apenas querem denegrir a imagem de um homem bom e dedicado ao bem estar do seu povo. a festa do regresso vai ser de arromba, não tenhamos dúvidas. e porque sorri o nosso primeiro no fim desta palhaçada? apetece fazer uso da velha frase: parem o mundo que eu quero descer.

terça-feira, novembro 20, 2007

o cozinheiro, o patrão, a justiça e a burrice dela

por muito que me tente alienar da parvoeira geral com que o país anda entretido, este caso do despedimento do cozinheiro da cadeia de hotéis sana, com base na sua seropositividade para o h.i.v., é demasiado gritante. contra todos os pareceres médicos e de autoridades de saúde pública, os juízes portugueses, do alto da sua ignorância, decidiram dar razão a preconceitos abjectos sem qualquer suporte científico. com esta decisão e o seu impacto na comunicção social, não foi apenas um, mas vários os passos atrás que foram dados em matéria de luta contra a discriminação das pessoas infectadas com o h.i.v., mais um mau serviço prestado pela nossa justiça à nossa sociedade. para as mentes inquietas e cépticas que ainda tenham dúvidas, aconselho a leitura desta declaração do institute of food science and technology, maior autoridade europeia em segurança alimentar, que remete para recomendações do center for the diseases control, autoridade soberana nos estados unidos da américa em matéria de saúde pública. não é interessante o parágrafo que diz: "food handlers who carry HIV are not a threat to their workmates or to the products that they handle. they should not be restricted from working with foods or beverages or be restricted from using telephones, machinery, office equipment, toilets, showers, eating facilities or drinking fountains"? mas nada disto interessa aos nossos juízes...
para expressarmos o nosso desagrado em relação e este triste episódio, está a decorrer online uma petição sobre o assunto. eu já assinei.

sexta-feira, novembro 02, 2007

e se nos dessem governantes de excelência?

alunos com deficiência vão ser ‘apoiados’ por professores sem formação, listas de espera devem-se ao fecho de unidades de saúde e de serviços nos hospitais, novo aeroporto: mário lino não leu o estudo da c.i.p., mas vai dar "vista de olhos". abre-se o portal sapo e depara-se com estes 3 títulos que dizem bem da arrogância e falta de sentido de responsabilidade com que estamos a ser governados. meus queridos membros do governo: falam tanto da necessidade de excelência por parte dos funcionários públicos, o que eu percebo e até concordo, mas não seria boa estratégia começarem por dar o exemplo? para se exigir excelência, tem que se dar excelência, e parece-me que não é este o caso. queremos governantes de excelência sim! apetece relembrar o poeta aleixo, quando dizia: vós que lá do vosso império, prometeis um mundo novo, calai-vos que pode o povo, querer um mundo novo a sério. é que não creio que vocês estejam à altura dos desafios do país.

terça-feira, outubro 09, 2007

o triunfo dos porcos

José Rodrigues dos Santos foi suspenso de funções e será alvo de um processo disciplinar para o seu despedimento. Em causa estão as declarações do pivot numa entrevista ao 'Público' e um artigo publicado no 'Diário de Notícias' sobre o tempo em que foi director de informação da RTP e as interferências governamentais no canal do Estado.

rodrigues dos santos disse apenas o que todos já sabíamos. a administração da r.t.p. confirma, ao tomar esta posição. quem fôr muito tapadinho que acredite nessa história da carochinha da vitimização e da necessidade de protagonismo. e eu pergunto: não estão fartos desta gente cinzenta a tomar-nos por parvos e a tapar o sol com a peneira?

sábado, outubro 06, 2007

how to get sick

a sic fez 15 anos. para comemorar, uma parada que vejo por breves momentos. foram demais. o leão branco do circo cardinalli não era o único bicho raro a desfilar. as "estrelas" da estação são muito mais raras do que o leão. duvido que haja muitos profissionais de televisão assim tão imbecis. as televisões não são como as pessoas, que vão ficando mais inteligentes à medida que crescem. pelo menos algumas. recordo-me da lufada de ar fresco que foi a sic quando apareceu. actualmente não é nada, a não ser uma parada de imbecilidades. a tvi, pelo menos, é assumidamente pimba. a sic nem isso.

quarta-feira, setembro 05, 2007

eu, animal



acabo de ler, num comentário de um blog, uma das frases mais imbecis que ouço ou leio recorrentemente: "não gosto nada de animais". provavelmente pensaram que a frase era bem mais terrível, mas é só isto: "não gosto nada de animais". confunde-me que nestes tempos de sociedade científica, em que desde a mais tenra idade se apresenta aos miúdos o enquadramento filogenético do homo sapiens, ainda haja pessoas que pensem que não são, elas próprias também, animais. afirmar que não se gosta de animais é uma espécie de tiro no pé, de falta de amor próprio, de desnorte existencial. somos o que somos, porque somos animais, porque partilhamos com todos eles moléculas, genes, sistemas fisiológicos, células especializadas, organizações tecidulares. para mim, que abraço demoradamente os dois cães grandalhões cá de casa enquanto eles me mordiscam as orelhas e me lambem o nariz, que toda a vida convivi com cães, gatos, hamsters, coelhos, galinhas, cágados, que levava para casa grilos, cobras d'água e morcegos que encontrava na rua, que fico horas a ver os insectos a labutarem nos canteiros à volta da casa, que estudo a evolução da colónia de passarada que habita a grande araucária nas traseiras da casa, que gosto de observar osgas, aranhas e outras "nojices" do género, afirmações deste tipo dão-me volta ao estômago.

negar a nossa animalidade, é negar a nossa própria essência, o nosso enquadramento natural. não sendo animais, restar-nos-iam as hipóteses de ser planta, fungo, vírus ou bactéria. não me estou a imaginar passar a existência com as raízes enterradas num pedaço de terra, a alimentar-me de matéria orgânica em decomposição, e a existência unicelular ou molecular também não me parece muito atractiva. creio que concordam comigo quando afirmo que ser animal é a melhor existência que nos poderia estar reservada neste calhau à deriva no espaço.

segunda-feira, junho 25, 2007

cidadão strikes back

numa sociedade cada vez mais agressiva economicamente, as técnicas de marketing directo têm evoluído duma forma quase absurda, constituindo actualmente autênticas invasões de privacidade. às horas mais impróprias, as empresas sentem-se no direito de telefornar-nos para casa e tentarem impingir-nos os seus produtos. as campeãs, pelo menos por estas paragens, parecem ser a portugal telecom e a tv cabo, se bem que os cartões de crédito se tenham vindo a esforçar arduamente para atingir o lugar cimeiro da tabela. igualmente, as caixas de correio são alvo sistemático de ataque, toneladas e toneladas de papel, algum da melhor qualidade, que vão directamente para reciclar, pelo menos cá em casa. às vezes tenho a impressão de que olham para mim, apenas como se fosse um conta bancária, obrigada a esvaziar-se para sustentar todo um mundo desumanamente absurdo. digo sempre que não estou interessado, com maior ou menor delicadeza conforme a disposição. como cidadãos actuantes e fazendo parte integrante da sociedade temos uma palavra a dizer e, porque não, trocarmos as voltas à lógica do sistema. duas dicas recebidas por e-mail podem ter alguma eficácia. para marketing telefónico, dizer apenas "um momento por favor" e irmos à nossa vida, deixando o telefone fora do descanso. deixarmos a empresa que nos telefonou gastar o máximo possível. para marketing via correio, particularmente para aquelas empresas que nos enviam um envelope rsf, é devolver o envelope, mas sem subscrever o serviço que nos tentam impingir. a empresa paga os portes, sem nenhum benefício. podemos dar largas à nossa imaginação e enviar nesses envelopes o folheto da pizzaria, publicidade recebida de outras empresas, tampas de iogurtes, lixo variado.

quarta-feira, maio 30, 2007

o país ao contrário

hoje, dia de greve geral, o país não ficou paralisado, ficou ao contrário, para não dizer na twilight zone. administrações de empresas ameaçando com processos disciplinares os trabalhadores em greve, listas nominais de grevistas no hospital de leiria e na faculdade de ciências de lisboa apesar do parecer da comissão nacional de protecção de dados amplamente divulgado na comunicação social, sabotagem cirúrgica no sistema de comunicações no metro do porto com direito a intervenção da p.j., cavaco relembrando a um governo socialista que a greve é um direito dos trabalhadores, um ministro que diz que não tem nada a ver com as decisões de um dos seus directores gerais, um deputado do c.d.s.-p.p. defendendo os grevistas perante um governo socialista. com os números ninguém se entende, como é costume, mas desta vez nem dá para fazer a média aritmética entre os números do governo e os dos sindicatos. gostei da nova estratégia da c.g.t.p. em não divulgar os números que recolheu, com o argumento de que as pessoas não são números. sempre é mais airoso do que assumir que a greve não teve os efeitos desejados. a sensação que tenho é que houve gente a mentir ao longo de todo o dia. de todos os lados, de todos os quadrantes. se fossem pinóquios, uma verdadeira confusão de narizes.

sábado, abril 14, 2007

da autofagia

andam todos muito divertidos com o caso da licenciatura do nosso primeiro, mas a verdade é que precisamos de alguém que governe esta merda de país. há quem o queira fazer cair a qualquer custo, como se houvesse na esfera política alguém credível para lhe ocupar o lugar. agarraram-se ao caso da licenciatura como os republicanos se agarraram à nódoa no vestido da monica lewinski para derrubar bill clinton. casos periféricos, que nada têm a ver com política ou com governação.
"Depois da desistência de Guterres, do abandono de Barroso, das trapalhadas de Santana, o país não aguenta mais desilusões do género. Se Sócrates cair, as consequências poderão ser devastadoras para a classe política.", escreve hoje carlos narciso no escrita em dia. é das frases mais lúcidas que tenho lido nos últimos tempos. o descrédito da nossa classe politica já raia as fronteiras do insustentável, mas o processo de autofagia parece imparável. se calhar o melhor é acabar com esta treta dos partidos e das eleições e abrir um grande concurso público internacional para se encontrar um conselho de administração que gira o país. é que há empresas que têm um orçamento bem superior ao nosso. e depois admiram-se que a extrema direita esteja em franca ascenção.

segunda-feira, abril 09, 2007

allgarvio? com muito gosto!






andar às vezes no mundo da lua e desligado do mundo da politicazinha idiota tem as suas vantagens. uma delas é só nos apercebermos das alarvidades à posteriori. estou-me a referir ao triste episódio à volta da marca allgarve, uma campanha inteligente, um bom exercício de marketing, que os dirigentes algarvios, secundados por boa parte da populaça sempre pronta a massacrar sem pensar, condenaram sumariamente, sem sequer terem parado dois segundos para pensar no que estava em jogo. gosto desta ideia do algarve global, que não promove apenas os hoteis e as praias, mas que se quer enriquecer e diversificar. um algarve com glamour. dá vontade de rir que velhos caciques locais, tipo bota ou elidérito se insurjam tão veementemente contra a nova marca. encalhados num tempo em que o sol e o corridinho chegavam, não percebem nada de marketing, de design, da necessidade de renovação. por essa blogosfera fora, encontram-se os comentários mais atávicos, sempre partindo do princípio que se quer mudar o nome da região. como se pode ser tão primário, para não dizer jurássico? se alguém ainda tem dúvidas, sugiro uma visita ao site da my brand, a empresa que criou a marca. não estou a imaginar os dubliners indignados com o ! em vez do i, exigindo a quem de direito que se acabe com a aviltação do bom nome da cidade. ou os pacatos habitantes de amsterdão em fúria por terem posto um I, à inglesa, antes do nome da sua cidade. allgarve, dubl!n, I amsterdam. a verdade é que funciona. pelo menos para quem tem dois dedos de testa.

sábado, abril 07, 2007

coisas q'a gente quase não acredita #3

gosto francamente mais deste, mas como não é de um partido político, vai ser ou já foi retirado. o outro, execrável, vai continuar lá, apesar de já estar meio destruído. expliquem-me, como se eu fosse muito burro.

sexta-feira, março 30, 2007

lesão frontal ventromediana


tinha eu acabado de escrever, em comentário noutro blog, que não valia a pena fazer muito barulho à volta da vitória do "inominável" no último reality-show da r.t.p., era deixar morrer o assunto, e deparo-me com este cartaz, que deve corresponder ao execrável outdoor a que já tinha ouvido vagas referências, e pensei: os gajos estão mesmo a por as garras de fora. não pensei que o movimento pendular da história fosse tão rápido e que a memória fosse tão curta. talvez a extrema-direita portuguesa esteja mesmo com apetites de poder e a perder a vergonha e a reinvidicar exposição pública. em nome das regras democráticas e do princípio da liberdade de expressão, isto deverá ser tolerado, mas a principal fraqueza da democracia em sentido lato é que dá espaço para que os seus inimigos cresçam no seu seio, os exemplos a nível mundial são inúmeros. um problema insolúvel, pois a negação da liberdade de expressão fere de morte, à partida, a própria democracia. resta a confiança num povo esclarecido,que já se provou que não somos, numa cultura de vivência democrática interventiva e activa que já se provou que não temos também. fico preocupado.

fico preocupado quando se veiculam estas mensagens que vão contra o mais básico dos bons-sensos. imagino a humilhação que qualquer imigrante (que trabalha neste país e que contribui mais para a economia nacional do que estes betinhos engravatados, como o da foto), sente ao se deparar com isto em tamanho gigante. fico preocupado também com o texto que acompanha o cartaz no site do partido. quem quiser dar-se ao trabalho, vá lá e veja com os seus próprios olhos defender-se que só é português quem tiver pai e mãe portuguesa, que se acabem as políticas do reagrupamento familiar, que estudantes estrangeiros devem voltar ao seu país de origem mal terminem os estudos e que se termine com a livre circulação de pessoas e bens dentro da europa.

lembro-me, a propósito, do recente artigo de antónio damásio na "nature" em que se comprova que os doentes cujo córtex frontal ventromediano (zona do cérebro situada acima dos olhos) está lesado têm geralmente menores reacções emocionais de dimensão social (compaixão, vergonha, culpabilidade, empatia) sem que a sua inteligência e a sua lógica sejam afectadas. damásio vai mais longe ao afirmar que os déspotas têm lesões no seu sistema emocional. isso já eu sabia, mas dito por damásio tem outro peso. resta-me concluir, e com desprezo, que o beto tem as supramencionadas lesões.