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sábado, junho 09, 2007

6 biliões de outros

olhei ao longe
vi qualquer coisa que se mexia
aproximei-me
vi um animal
aproximei-me mais um pouco
vi um homem
aproximei-me mais um pouco
vi que era meu irmão
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é com este antigo ditado tibetano que yann arthus-bertrand, conhecido pelo seu trabalho como fotógrafo aéreo e que tem editado alguns dos mais belos livros de fotografia sobre o planeta terra, apresenta o seu projecto "6 biliões de outros", no site da goodplanet.org. diz ainda arthus-bertrand: "a terra vista do céu" transformou-me. 10 anos de voos por cima do planeta não deixam ninguém intacto. fui naturalmente muito marcado pela beleza da terra, mas sobretudo pela ausência de fronteiras vistas do céu. o contraste é notório entre as dificuldades que conheci ao longo das minhas reportagens para obter as autorizações de voo, para passar as fronteiras com o material fotográfico, e a imaterialidade desses mesmos limites vistos do céu. é uma terra a partilhar, mas não conseguimos fazê-lo. ela é nossa, de todos nós, embora em toda a parte no mundo haja gente pronta a morrer e a matar por uma parcela. daí nasceu a minha obsessão de querer compreender porque não conseguimos viver juntos, co-existir".
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o projecto nasceu em 2003, com o objectivo de reunir testemunhos de gente das mais variadas origens sobre temas que nos interessam a todos, descobrir como as vivências influenciam a identidade de cada um, compreender o que nos separa e o que podemos partilhar.
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o resultado de algumas dessas entrevistas está disponível aqui. vale a pena ouvir como somos tão semelhantes e tão diferentes ao mesmo tempo. em 2008, ano em que termina o projecto, será possível ouvir todos os testemunhos recolhidos e juntar o nosso próprio directamente no site.

domingo, maio 20, 2007

you just don't understand

homens e mulheres comunicam de maneira diferente, e usam a comunicação com objectivos diferentes? deborah tannen acha que sim e expõe as suas ideias no livro "you just don't understand", editado em portugal com o título "não nos estamos a entender". centrado na ideia de que, ao comunicar, muitas mulheres se centram mais na meta-mensagem da conexão e muitos homens se preocupam mais com a independência e o estatuto (não querendo isto dizer que os homens não se preocupam com a conexão ou que as mulheres não se preocupam com a independência e o estatuto), a autora discorre ao longo de páginas recheadas de exemplos que todos nós reconhecemos. uma análise polémica, dirão alguns, mas com um fundo de verdade. deborah tannen diz que tudo começa na infância, quando meninos e meninas tendem a brincar em grupos do mesmo sexo. nas brincadeiras dos meninos há regras, que frequentemente são modificadas, há líderes, há disputa de estatuto, há vencedores e perdedores. nas das meninas, há mais vezes igualdade de estatuto e frequentemente não há vencedores, todas têm a sua vez, como quando saltam à corda ou quando brincam às casinhas. estas diferenças acompanham depois homens e mulheres pela vida fora, dificultando a comunicação entre os dois sexos, que a autora considera como comunicação intercultural. o não entendimento destas diferenças de estilo e de objectivos é frequente fonte de frustração e de mal entendidos. compreeder o "outro lado", será assim meio caminho andado para que a comunicação seja mais eficaz. a história clássica do casal que segue pela auto-estrada e a mulher pergunta: não queres parar para tomar um café? e o marido responde: não, e continua em frente, é um exemplo. para ele, se ela queria parar, deveria tê-lo dito, para ela, ele deveria ter percebido que ela queria parar.

deborah tannen analisa também a maior tendência dos homens para intervirem no discurso público e das mulheres para intervirem no discurso privado. as queixas frequentes de muitas mulheres de que "ele não fala comigo, mas quando estamos com amigos ele é o centro das atenções", pode ser explicado através da dualidade conexão/estatuto. da análise de deborah tannen, ninguém sai vencedor, nenhum estilo é mais valorizado, o objectivo é reflectir e contribuir para a compreensão do "outro estilo". para exemplificar, alguns excertos:

"ela diz-lhe o que está a pensar e ele ouve-a em silêncio. ela pergunta-lhe o que ele está a pensar e ele demora tempo a responder: não sei. frustrada ela desafia: não tens nada no espírito? para rebecca, que está acostumada a expressar os seus pensamentos e opiniões à medida que lhe chegam, nada dizer, significa nada pensar. mas stuart não considera que os pensamentos que lhe passam pela cabeça sejam coisa importante de dizer. não tem o hábito de falar sobre as suas ruminações mentais, por isso, enquanto rebecca fala naturalmente dos seus pensamentos, ele naturalmente descarta os seus à medida que lhe ocorrem. falar deles dar-lhes-ia mais peso e significado do que ele acha que merecem. toda a vida ela verbalizou os seus pensamentos e sentimentos em conversas privadas com pessoas que lhe são próximas; toda a vida ele descartou os seus pensamentos e os manteve para si próprio."

"achamos que sabemos como é o mundo, e olhamos para os outros para reforçarmos essa convicção. quando vemos os outros agirem e pensarem como se o mundo fosse um lugar completamente diferente do que nós habitamos, ficamos abalados. olhamos para as nossas relações mais próximas como fontes de confirmação e sossego. quando os mais próximos de nós reagem aos acontecimentos de forma diferente da nossa, quando eles parecem ver a mesma cena como parte de uma peça diferente, quando eles dizem coisas que nunca imaginaríamos dizer nas mesmas circunstâncias, o chão que pisamos parece tremer e sentimo-nos subitamente inseguros"

"se os adultos aprendem as suas formas de falar enquanto crianças crescendo em mundos separados, então a conversação entre homens e mulheres é uma comunicação intercultural. apesar de cada estilo ser válido nos seus próprios termos, os mal-entendidos surgem porque os estilos são diferentes. uma aproximação intercultural às conversas masculino-femininas torna possível explicar por que razão as insatisfações se justificam sem acusar ninguém de estar errado ou ser doido. aprender acerca das diferenças de estilo não as faz desaparecer, mas pode eliminar a má interpretação e a culpabilização mútuas."

por mim, estou a achar o livro bastante interessante, e dou por mim a sorrir frequentemente, ao reconhecer episódios que se passam comigo ou que observo ao meu redor. um livro interessante e diferente, óptimo para se ler quando o último livro de ficção que se leu nos deixou uma impressão muito forte, como foi o meu caso com "a sombra do vento".