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quinta-feira, abril 17, 2008

trivia

a acção passa-se numa pequena agência bancária de bairro. hora do almoço, aguardo para falar com o meu gerente de conta que se encontra ocupado com outro cliente. para matar o tempo vou observando as pessoas que fazem fila para serem atendidas na única caixa de que a agência dispõe. não muitas, 4 ou 5 a cada momento. os sujeitos do costume, com formas, posturas e estilos variados. num dado momento ouço, todos os presentes ouvem, as instruções dadas por um cliente, sem reserva de intimidade. queria o dito cliente depositar um cheque no valor de vinte e tal mil euros. mas queria que o depósito fosse efectuado sem ficar o registo do depósito do cheque e frisou-o várias vezes com um volume sonoro de quem não tem nada a esconder. queria, assim, que em vez de uma operação fossem efectuadas duas simultâneamente. primeiro levantaria o cheque em numerário e acto contínuo um depósito desse numerário na sua conta. o que ele não queria era que ficasse o registo do depósito do cheque. certamente uma fugazita aos impostos, daquelas sem importância, e que, na óptica do prevaricador, toda a gente faz e para a qual não é necessária nenhuma reserva de intimidade.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

que eu me lembre, para haver um país tem que haver um povo e um território. território, temos...

francisco van zeller, uma das figuras mais simpáticas, mais democráticas e menos gananciosas da sociedade portuguesa, entende que os despedimentos não podem ser só provocados por inadaptação ou casos disciplinares. as confederações patronais da indústria e do comércio querem que as empresas passem a poder despedir trabalhadores quando pretendam renovar os seus quadros de pessoal. "não raro, as empresas estão apenas carecidas de trabalhadores diferentes e não de menos trabalhadores. é essa renovação que também se tem de possibilitar", defende a confederação da indústria portuguesa. em minha opinião, muitas empresas benefeciariam muito mais se lhes renovassem os dirigentes, substituindo-os por pessoas mais jovens, mais bem formadas moralmente, com melhores conhecimentos técnicos de gestão de recursos humanos e menos gananciosos, que não desbaratassem o capital das empresas em vidas desproporcionalmente luxuosas. a pretensão destes senhores é, em si mesma, preocupante. como se as empresas não tivessem responsabilidades éticas ou sociais. o objectivo é deixar os funcionários completamente à mercê das chefias e patrões, promovendo o culambismo, as formas encapotadas de semiescravatura e os pequenos e grandes delatores. mas mais preocupante ainda são os comentários que os leitores do público deixaram na respectiva caixa. muitos (funcionários públicos, presume-se) regozijam-se com esta pretensão da c.i.p., como vingança pelos ataques que os trabalhadores das estruturas privadas têm feito, de alguns anos a esta parte, aos pretensos previlégios da função pública. podem ler-se pérolas como "criticaram os funcionários públicos? acharam bem tudo aquilo que nos têm feito? pois esperem que a vingança vai servir-se GELADA." ou "erguem-se agora as virgens ofendidas, trabalhdores do sector privado, quando o alvo foi a função pública recomendavam: mudem de emprego. chegou a hora da função pública lhes dizer: não estão satisfeitos, EMIGREM." como funcionário público que sou, não posso deixar de perceber a origem deste desejo de "vingança", mas estas fracturas sociais não auguram nada de bom para este povo. mas há mais. alguns leitores mais catastróficos já dão a pretensão da c.i.p. como lei, como dado adquirido, e aproveitam para desancar no governo com toda a veemência. às vezes torna-se difícil chamar a isto um país...

terça-feira, setembro 25, 2007

o cão português


este cão é português. como qualquer bom português, sabe que as leis, as indicações de utilização do espaço público, as regras de trânsito e as obrigações fiscais não são para cumprir. o cão português, em nome da liberdade individual, não liga a essas coisas e despreza quem lhes dá atenção. despreza e goza os pobres coitados que vivem limitados por tão ridiculas ninharias. pensa que quem não faz tramóia é porque não sabe, porque não é tão inteligente como ele. ou então estão-se a armar ao cucos, a dar uma de bom cidadão, quando no fundo são tão sacanas como ele. o cão português pensa que se não fôr visto, não há problema. e mesmo que seja apanhado em flagrante e alguém lhe chamar a atenção, pode sempre fazer uso da sua testosterona mal controlada e mandar o outro para o caralho, ou à merda, se fôr uma senhora. o cão português acha que o mundo não é mais do que um palco para a sua gloriosa existência e que todos os outros são personagens secundárias.

as minhas sinceras desculpas:

à k., autora do gatilho, de onde pilhei a foto;

aos menores de idade e às pessoas mais sensíveis, pelo uso de palavrões;

aos cães genuínos, pelo uso abusivo do seu bom nome.