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quarta-feira, março 18, 2009

para quem pensa que é um mal endémico exclusivamente português

a inveja é a religião dos medíocres. reconforta-os, responde às inquietações que os roem por dentro e, em última análise, lhes apodrece a alma e lhes permite justificar a sua mesquinhez e cobiça, a ponto de acreditarem que são virtudes e que as portas do céu se abrirão apenas aos infelizes como eles, que passam pela vida sem deixar outra marca que não seja a das suas mal-amanhadas tentativas de amesquinhar os outros e de excluir e, se possível for, destruir aqueles que, pelo simples facto de existirem e de serem quem são, põem em evidência a sua pobreza de espírito, mente e entranhas. bem-aventurado aquele a quem os cretinos ladram, porque a sua alma nunca lhes pertencerá.

carlos ruiz zafón in o jogo do anjo

(ora não consta que o sr. zafón alguma vez tenha vivido em portugal, pelo que temos que concluir que, pelo menos, em espanha também existem.)

sábado, julho 12, 2008

o ano de 1993

o ano de 1993 deve ser dos objectos literários mais peculiares de josé saramago. uma distopia onírica em forma de longo poema dividido em 30 partes, cada uma funcionando como uma entidade. no futuro, uma guerra, invasores, cidades conquistadas, populações dizimadas. os poucos que sobrevivem tomam dois caminhos: uns ficam prisioneiros nas cidades, outros fogem e agrupam-se em tribos que sobrevivem, em regressão civilizacional, num mundo hostíl onde são perseguidos por animais biomecânicos. é fácil estabelecer um paralelo com o 1984 de george orwell. um futuro próximo, sociedades totalitárias, os homens prisioneiros nas cidades. mas enquanto orwell centra a sua história em personagens bem individualizadas, saramago refere-se ao colectivo, sem nomear os intervenientes. enquanto orwell descreve, saramago sonha em discurso fluído discorrendo sobre a natureza humana. um excerto:


"E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade

O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu

Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade

O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão

Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos

Provando assim que cada tribo tem o deus que perfere e não outros

Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu

E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam

Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam

Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor

E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou"


mais um excerto:


"Quando os habitantes das cidades se tinham já habituado ao domínio do ocupante

Determinou o ordenador que todos fossem numerados na testa como no braço se fizera cinquenta anos antes em Aushwitz e noutros lugares

A operação era indolor e por isso mesmo não houve qualquer resistência nem sequer protestos

O próprio vocabulário sofrera transformações e haviam sido esquecidas as palavras que exprimiam a indignação e a cólera

Deste modo os habitantes da cidade se acharam numerados de 1 a 57 229 porque a cidade era pequena e fora escolhida para experimentação entre todas as cidades ocupadas

Dois meses depois o ordenador registava valores de comportamento e diferentes estados de espírito consoante o número que havia cabido a cada habitante

Entre o 1 e o 1000 estava o perfeito contentamento de si próprio ainda assim dividido em mil exactas pequenas parcelas

Ninguém reconhecia autoridade a quem tivesse número superior ao seu o que explica que o 57229 comesse com os cães e tivesse de masturbar-se porque nenhuma mulher queria dormir com ele

Os habitantes de 1 a 9 consideravam-se chefes da cidade e vestiam segundo as modas do ocupante

Mas o primeiro deles mandou fazer um aro de ouro que suspendia sobre a testa como sinal de poder e autoridade e hoje basta este sinal para que todas as cabeças se curvem a partir de 2

Porém só o ordenador sabe que estes números são provisórios e que dentro de vinte e quatro horas todos se apagarão para reaparecerem por ordem inversa

Processo tão bom como os animais mecânicos para prosseguir o extermínio da população ocupada

Pois todas as humilhações serão retribuídas cem por um até à morte

Enquanto os ocupantes se distraem nos espectáculos que para seu uso ainda funcionam"

sábado, maio 10, 2008

amesterdão

"no seu canto da zona ocidental de londres, e na sua rotina diária, em que todas as preocupações se centravam em si mesmo, era fácil para clive pensar na civilização como a soma de todas as artes, associadas ao design, à culinária, aos bons vinhos e a coisas semelhantes. mas agora parecia-lhe que ela era o que de facto era - quilómetros quadrados de casas modernas mesquinhas, cujo principal objectivo era suportar antenas de televisão e parabólicas, fábricas que produziam tralha inútil para ser anunciada na televisão e, em lúgubres lotes de terreno, filas de camiões para as distribuirem; e, por todo o lado, estradas e a tirania do tráfego. tudo aquilo fazia lembrar o rescaldo de uma festa desvairada. ninguém teria desejado que as coisas fossem assim, mas não lhes tinham perguntado. ninguém planeara aquilo, ninguém quisera aquilo, mas a maioria das pessoas era obrigada a viver ali. ao observar aquele espectáculo quilómetro após quilómetro, quem poderia suspeitar que purcell ou britton, shakespeare ou milton, tinham alguma vez existido? de vez em quando, no momento em que o comboio ganhava velocidade e se afastava mais de londres, o campo aparecia e com ele o início da beleza, ou a recordação dela, até que, segundos mais tarde, se diluía num rio que se transformava numa represa acimentada ou num súbito ermo agrícola sem cercas nem árvores, e estradas, novas estradas a estenderem-se até ao infinito, despudoradamente, como se tudo o que importava fosse estar noutro sítio. no que dizia respeito ao bem-estar de todas as outras formas de vida da Terra, o projecto humano era, não apenas um fracasso, mas um erro do princípio ao fim."

ian mcewan, in amesterdão

gosto principalmente da imagem das casas modernas mesquinhas, cujo principal objectivo é suportarem antenas de televisão e parabólicas... mas amesterdão, escrito há 10 anos atrás, não é um livro com pretensões a manifesto ambientalista, eu é que gostei particularmente da força destas imagens. é uma deliciosa reflexão sobre o sucesso, a ilusão do sucesso, a fragilidade da política e das estratégias editoriais dos jornais. sob o olhar irónico de mcewan, ninguém se salva. nem o político que se vê envolvido num escândalo sexual, nem o director do jornal que se prepara para publicar as fotografias compremetedoras, nem o homem que vende as fotografias ao jornal, nem o compositor de renome a quem foi encomendada a sinfonia para assinalar a passagem do milénio. quatro homens ligados por uma mulher, de quem todos foram amantes e que acaba de morrer. pelo meio, a fragilidade de uma amizade, devorada pelo despeito, pelo orgulho, pelo egoísmo e pela fama. uma crónica mordaz, um olhar desapaixonado sobre as esferas do poder. e ainda há quem lhes chame elites...

quarta-feira, abril 23, 2008

o poder dos livros

em 2003 mladen penev, designer gráfico de origem búlgara, criou esta série que, melhor do que 1.000.000 de palavras, sintetiza o admirável mundo que se abre através da leitura. para assinalar o dia mundial do livro.














segunda-feira, abril 21, 2008

o jogo do anjo

boas notícias para quem, como eu, se apaixonou pel'a sombra do vento. carlos ruiz zafón acaba de lançar o segundo volume do que, agora se sabe, irá constituir uma tetralogia. passado nos anos 20 e 30 do século passado, el juego del angel volta a ter como panos de fundo o camitério dos livros esquecidos e a cidade de barcelona. será esse, aliás, o elemento de ligação entre os 4 romances, que funcionarão como elementos autónomos em termos de trama narrativa. a primeira edição do novo romance decorreu com pompa e circunstância, tendo sido postos à venda um milhão de exemplares.

david martín, o protagonista de el juego del angel, é um escritor que vive o momento mais trágico da sua vida quando é contactado por un editor de paris que lhe faz uma oferta irrecusável: escrever no prazo de um ano um livro como nunca antes existira. no entanto, a encomenda esconde un segredo e o jogo do anjo é activado quando martín aceita a encomenda... eu, que não gosto nada de fenómenos de massas, espero ansiosamente a edição portuguesa d'o jogo do anjo.

quinta-feira, abril 17, 2008

não podia estar mais de acordo, é por isso que o hugo é uma das minhas figuras de referência

"cultura universitária, cultura de massas, cultura esotérica, cultura aristocrática, cultura proletária (...). cada cultura tem os seus temas, as suas modas, os seus partidários.(...) o ideal parece-me consistir em ter professores que nos ensinem as bases, e depois fazermos nós próprios as nossas pesquisas, em total independência relativamente às ideias dominantes nos meios oficiais. na minha concepção, alguém que seja culto é necessariamente eclético: se apenas conhece o universo cultural a que pertence klingsor ou aqule a que pertence king kong, não é verdadeiramente culto. (...) o trabalho dos que contaram a história de perceval não me parece fundamentalmente diferente do trabalho dos que criaram king kong: os modos de expressão diferem, mas é o mesmo esforço de criatividade para contar uma história repleta de maravilhoso e ao mesmo tempo épica e poética. (...)

quanto a estabelecer uma hierarquia entre as diversas formas de expressão artística, isso parece-me impossível. assim, aqueles que dizem que a banda desenhada é um género intrinsecamente inferior ao romance avaliam a banda desenhada aplicando os critérios do romance, e nesse caso é evidente que não se pode senão chegar à conclusão que a banda desenhada é subliteratura. mas essa gente esquece-se, ou não sabe, que a banda desenhada tem o seu próprio código e que é apenas situando-se no interior desse código que se pode apreciá-la. (...)

essas reacções negativas vêm geralmente de mandarins da cultura de tipo universitário e nada têm de surpreendente, pois a cultura oficial é por natureza conservadora, e desde sempre desconfiou dos novos modos de expressão artística. no século 18 desprezava os romances e levou tempo a compreender que o cinema não é subteatro. acabará por se aperceber que a banda desenhada pode ser uma arte. esperemos que não ponha então a banda desenhada sob a sua tutela, erigindo-se em árbitro da sua estética e atribuindo-se o monopólio da sua exegese, o que teria como consequência fazer passar a banda desenhada de um gueto cultural para outro.

encontram-se coisas apaixonantes em cada tipo de cultura, e também muitas coisas sem interesse. o que é preciso é apropriarmo-nos do que há de mais pertinente em cada universo cultural, sem nos deixarmos encerrar em nenhum deles. é preciso ir ao fundamental. o resto são meras repetições, e portanto uma perda de tempo. fazer coexistir na minha cabeça diferentes culturas nunca me causou qualquer problema (...). só posso conceber uma vida intelectual assim, completamente livre."






hugo pratt in "o desejo de ser inútil - memória e reflexões" (entrevistas com dominique petitfaux), relógio d'água editores, 2005
imagem: hugo pratt, corto maltese - tango

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

ratos e homens

"- o que eu digo não tem importância, entende? seja como for, você não se lembrará. muitas vezes vi isso... um homem que fala com outro e não se importa se o outro escuta ou compreende. a questão é falar, ou então ficar calado, sem falar. não há diferença, nenhuma diferença. (...) george pode dizer-lhe qualquer disparate, é o mesmo. o caso é falar. o caso é estar com outra pessoa. isso é tudo. (...) você tem george. sabe que ele voltará. mas imagine se não tivesse ninguém. imagine se não pudesse ir ao quarto dos peões jogar às cartas por ser negro. (...) imagine que tinha que ficar aqui sentado, a ler, a ler. os livros não servem. um homem precisa de alguém, alguém que esteja perto. ficamos como loucos quando não temos ninguém. (...) uma pessoa fica aqui sentada de noite, a ler livros, ou a pensar ou qualquer coisa assim... às vezes, ficamos a pensar e não temos ninguém que diga sim ou não. quando vemos alguma coisa, não sabemos se está certo ou errado. não podemos perguntar ao outro se viu também. não podemos falar. não temos com quem discutir. tenho visto muitas coisas aqui. e eu não estava bêbado. não sei se estava a dormir... se tivesse um companheiro comigo, ele podia dizer se eu estava a dormir e tudo ficava bem. mas não sei..."


ratos e homens de john steinbeck, publicado pela primeira vez em 1937, é um soco no estômago que se devora em pouco mais de uma hora. um fresco do realismo habitado por personagens consistentes, um texto cinematográfico de onde se desprendem sentimentos tão comuns como a amizade, a solidão e o ensejo de uma vida digna. há livros que não envelhecem com o passar dos anos e este é, certamente, um deles.

sábado, fevereiro 16, 2008

balanço patriótico

nas anotações à sua peça de teatro "pátria", publicada em 1896, guerra junqueiro escreveu frases estranhamente actuais. 112 anos depois. para que não se pense que é invenção do und3rblog, pode-se conferir com o texto original, disponível em e-book no site do projecto gutemberg. faço minhas (quase) todas as suas palavras. reza assim:

"Balanço patriótico:

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúsio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, bêsta de nora, agùentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalépsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, emfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional,--reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta;
(...)
Uma burguesia, cívica e políticamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provêm que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos
(...)
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; êste criado de quarto do moderador; e êste, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre,--como da roda duma lotaria;
A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer dela um saca-rôlhas;
Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar (...) meia libra ou uma gota de sangue, vivendo ambos do mesmo utilitarismo scéptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguêm deu no parlamento,--de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar;
(...)
Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante,--o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários;
(...)
E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares,--_tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc. etc.
(...)
A burguesia liberal, mercieiros-viscondes, parasitagem burocrática, bacharelice ao piano, advogalhada de S. Bento, _morgadinhas_, _judias_, sinos, estradas, escariolas, estações, inaugurações, locomotivas (religião do Progresso, como êles diziam), todo êsse mundo de vista baixa, moralmente ordinário e intelectualmente reles,
(...)
O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroismo, capaz de cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante. Ruge com Passos Manuel, grunhe com D. João VI. É de raça, é de natureza. Foi sempre o mesmo. A história pátria resume-se quási numa série de biografias, num desfilar de personalidades, dominando épocas. Sobretudo depois de Alcacer. Povo messiânico, mas que não gera o Messias. Não o pariu ainda. Em vez de traduzir o ideal em carne, vai-o dissolvendo em lágrimas. Sonha a quimera, não a realiza.
(...)
Sei muito bem que o estadista não é o santo, que o grande político não é o mártir, mas sei tambêm que toda a obra governativa, que não fôr uma obra de filosofia humana, resultará em geringonça anecdótica, manequim inerte, sem olhar e sem fala.
(...)
A ductilidade, quási amorfa do carácter português, se torna duvidosas as energias colectivas, os espontâneos movimentos nacionais, facilita, no entanto, de maneira única, a acção de quem rege e quem governa. Cera branda, os dedos modelam-na à vontade. Um grande escultor, eis o que precisamos.
Há, alêm disso, bem no fundo dêste povo um pecúlio enorme de inteligência e de resistência, de sobriedade e de bondade, tesoiro precioso, oculto há séculos em mina entulhada. É ainda a sombra daquele povo que ergueu os Jerónimos, que escreveu os Lusíadas. Desenterremo-la, exumemo-la. Quem sabe, talvez revivesse! (...)"

domingo, dezembro 30, 2007

se não os podes vencer, junta-te a eles #3

livros. nunca os leio quando eles são editados. na categoria "melhor livro lido em 2007" o prémio vai para a sombra do vento de carlos ruiz záfon. poucas vezes um romance deixou marcas tão fortes e proporcionou um tão verdadeiro deleite durante a leitura. já falei dele aqui.









na categoria "melhor releitura do ano", ganha com destaque os mares do sul de manuel vásquez montalbán. barcelona, sempre barcelona, desta vez pelo olhar do detective pepe carvalho, céptico, gastrónomo, que vai queimando paulatinamente a sua colecção de livros na lareira. uma bela recriação dos primeiros anos pós-franco como pano de fundo para uma investigação criminal. leve e profundo simultaneamente.







na categoria "melhor banda desenhada lida em 2007", o prémio vai para alguns meses em amélie de jean-claude denis, em boa altura publicado pelas edições asa. a história de uma escritor em crise pessoal e criativa, que redescobre o prazer de estar vivo ao seguir o percurso feito antes por um outro escritor, cujo livro descobre adormecido nas estantes da sua própria casa. denis assina uma obra profundamente humana, em que o destino brinca com as personagens, à semelhança do que faz na vida real. gosto de livros assim, quando se pode falar de literatura desenhada.

sábado, dezembro 29, 2007

se não os podes vencer, junta-te a eles

é inútil tentar fugir à onda de "os melhores do ano" que invade nesta altura tudo o que é veículo de comunicação, blogosfera incluída. todas a gente tem as suas listas preparadas. o und3rblog também. para já, as melhores árvores de natal deste ano.
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frank visser, via bibliotecário de babel



filipe abranches, via citizen mary

sexta-feira, novembro 02, 2007

página 161, 5ª frase completa

"quero que passe toda a noite a pensar no que vamos falar"

:: transformar o aleatório em significante. o desafio, que me foi passado pelo josé gomes andré, consiste em pegar no livro mais à mão e transcrever a 5ª frase completa da pág. 161. como o livro mais à mão era um tratado de imunologia em inglês e não creio que as funções regulatórias das células T interessem ao comum dos mortais, recorri ao livro de cabeceira: os mares do sul, de manuel vásquez montalbán. saiu uma frase que pode ter múltiplos significados, é só escolher e contextualizar.
como manda a praxe, passo a 5 colegas, se quiserem pegar na deixa: à different (do mentacutilante), ao luís f. (do reais ficções), ao eskisito (do eskisito rules), ao matvey (da marcha dos pinguins) e à margarida (do palavras de sabão).

terça-feira, agosto 14, 2007

contributos para uma silly season de qualidade | as cores de marcade

o ciclo de cyann está de regresso. o 4º volume da excelente série de bourgeon e lacroix tem edição nacional através das edições asa. para quem não conhece, um breve resumo. o ciclo de cyann começou a ser editado na saudosa revista (à suivre) das editions casterman no início dos anos 90. saga futurista, relata as aventuras de cyann olsimar, jovem descendente de uma das famílias mais poderosas do planeta olh. ao longo do ciclo, acompanhamos a evolução de cyann, de jovem irreverente e corajosa a mulher amadurecida pela crueza da vida. os paradigmas do espaço-tempo, uma rede de aneis de teletransporte, uma pitada de erotismo-light, consistência psicológica dos personagens, são alguns dos ingredientes da série, o que contribui para a credibilidade dos universos criados. "a fonte e a sonda" e "seis estações em ilo", os dois primeiros volumes, foram editados em portugal pela meribérica, "aïeïa de aldaal", o terceiro, pelas edições asa. obra completa à disposição, portanto, os volumes da meribérica ainda se encontram por aí. neste 4º volume vamos encontrar cyann no planeta marcade, à procura de um meio de regressar a olh. mais um planeta que, à semelhança dos outros, é habitado pela espécie humana. vagas referências ao planeta azul permitem-nos concluir que estamos perante a descendência do bicho-homem terrestre. e bicho-homem será sempre bicho-homem. neste planeta marcade tudo se paga, até uma simples troca de informações. quem perde o direito ao seu crédito é excluído da sociedade. tal como nos outros volumes da série, tudo é cuidado ao mínimo pormenor. a fauna autóctone, a arquitectura, os costumes sociais, num esforço criativo digno de ser assinalado. o desenho confirma bourgeon como um dos mais interessantes desenhadores da banda desenhada europeia contemporânea. fica-se a aguardar o 5º volume que se anuncia como o último do ciclo. em baixo, as duas primeiras pranchas, em versão francesa, para aguçar o apetite.





sábado, julho 07, 2007

dix de der



quem deterá agora os direitos de publicação da obra de didier comès em portugal? as últimas edições conhecidas foram dadas à estampa pelas edições asa - "as lágrimas do tigre" e a reedição a cores do inesquecível "silence". se ainda são eles, então porque esperam para editar "dix de der", última obra do autor, publicada já no longínquo mês de outubro de 2006 na língua francesa original. para quem não conhece, didier comès foi uma das revelações da revista (à suivre), a melhor revista de banda desenhada que alguma vez existiu, afirmação esta não sujeita a discussão. "silêncio", a primeira obra de longo fôlego, irrompeu e conquistou os leitores, a história de um orfão, mudo, criado num mundo rural tacanho e cheio de misticismo. o onirismo e a maestria no domínio do preto e branco. dix de der anuncia-se como uma história sobre a inutilidade da guerra, cheia de humor negro, acção e introspecção. três fantasmas (um francês e um alemão mortos na guerra de 1914 e um alcoólico vítima de cirrose entre as duas guerras) são testemunhas da ofensiva alemã nas ardenas belgas em 1944. a maestria mantem-se e o apelo impõe-se: senhores editores (das edições asa, I presume), não se esqueçam desta obra.

quarta-feira, junho 13, 2007

a única conclusão a que chego

"A própria cidade me parece um exemplo da mais alta insanidade - tudo nela: esgotos, linhas de comboio aéreo, máquinas caça-moedas, jornais, telefones, polícias, puxadores de portas, bordéis, papel higiénico, tudo. Não faria diferença alguma se nenhuma dessas coisas existisse; além de não se perder nada, ganhava-se um universo inteiro. Olho para as pessoas que passam por mim para ver se alguma concordará, por acaso, comigo. E se interceptasse uma e lhe fizesse uma simples pergunta? E se lhe perguntasse, apenas: Porque continua a viver da maneira que vive? Provavelmente chamaria um polícia. Pergunto a mim próprio; alguém falará consigo mesmo como eu falo comigo? Pergunto-me se haverá alguma coisa errada em mim. A única conclusão a que chego é que sou diferente. E isso é uma coisa muito grave, seja qual for a perspectiva de que a vejamos."

henry miller, trópico de capricórnio

terça-feira, junho 12, 2007

dulle griet

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partindo do quadro "dulle griet" de pieter brueghel, reproduzido acima, hermann (desenho) e yves h. (argumento) assinam o mais belo episódio da série "bois-maury", injustamente desprezada entre nós, com edição muito irregular, mas que a editora vitamina bd parece agora ter abraçado, como aliás tem feito com a maior parte das obras mais recentes de hermann. uma história passada nos tempos da santa inquisição, com o diabo e a ganância à solta. acção centrada numa pequena cidade belga por onde pieter brueghel passeia como observador dos dramas e da loucura de um tempo em que a lei do inquisidor se sobrepunha a tudo e a todos. entre a realidade e o onírico, hermann pinta com a habitual maestria uma narrativa soberba, com personagens trágicos, fascinantes na sua humanidade, enredados nas malhas de um tempo obscuro e cruel. "bois-maury" é uma série de histórias em banda desenhada centrada na linhagem dos bois-maury, descendentes do cavaleiro aymar. histórias autónomas passadas na alta idade média, focadas no povo anónimo e nos seus hábitos e modos de vida, servidas por um excelente enquadramento documental. hermann continua, sem dúvida, a ser um dos mestres da banda desenhada actual, com uma técnica de pintura e de planificação narrativa que me arrebatam a cada nova obra. escusado será dizer que aconselho vivamente.

domingo, junho 03, 2007

the deep book

a natureza não pára de nos surpreender. estas imagens são retiradas do livro "the deep: the extraordinary creatures of the abyss", compilado por claire nouvian, uma jornalista, produtora e realizadora que se deixou encantar pela beleza dos seres das profundezas oceânicas. há quem diga que é o livro de fotografias sobre os oceanos mais belo de sempre. a julgar por esta pequena amostra das mais de 200 fotografias, acredito que sim. o site oficial do livro também é de um bom gosto irrepreensível. agradeço à idadedapedra pela dica.
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(clique nas imagens para as ver em tamanho grande)
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domingo, maio 20, 2007

you just don't understand

homens e mulheres comunicam de maneira diferente, e usam a comunicação com objectivos diferentes? deborah tannen acha que sim e expõe as suas ideias no livro "you just don't understand", editado em portugal com o título "não nos estamos a entender". centrado na ideia de que, ao comunicar, muitas mulheres se centram mais na meta-mensagem da conexão e muitos homens se preocupam mais com a independência e o estatuto (não querendo isto dizer que os homens não se preocupam com a conexão ou que as mulheres não se preocupam com a independência e o estatuto), a autora discorre ao longo de páginas recheadas de exemplos que todos nós reconhecemos. uma análise polémica, dirão alguns, mas com um fundo de verdade. deborah tannen diz que tudo começa na infância, quando meninos e meninas tendem a brincar em grupos do mesmo sexo. nas brincadeiras dos meninos há regras, que frequentemente são modificadas, há líderes, há disputa de estatuto, há vencedores e perdedores. nas das meninas, há mais vezes igualdade de estatuto e frequentemente não há vencedores, todas têm a sua vez, como quando saltam à corda ou quando brincam às casinhas. estas diferenças acompanham depois homens e mulheres pela vida fora, dificultando a comunicação entre os dois sexos, que a autora considera como comunicação intercultural. o não entendimento destas diferenças de estilo e de objectivos é frequente fonte de frustração e de mal entendidos. compreeder o "outro lado", será assim meio caminho andado para que a comunicação seja mais eficaz. a história clássica do casal que segue pela auto-estrada e a mulher pergunta: não queres parar para tomar um café? e o marido responde: não, e continua em frente, é um exemplo. para ele, se ela queria parar, deveria tê-lo dito, para ela, ele deveria ter percebido que ela queria parar.

deborah tannen analisa também a maior tendência dos homens para intervirem no discurso público e das mulheres para intervirem no discurso privado. as queixas frequentes de muitas mulheres de que "ele não fala comigo, mas quando estamos com amigos ele é o centro das atenções", pode ser explicado através da dualidade conexão/estatuto. da análise de deborah tannen, ninguém sai vencedor, nenhum estilo é mais valorizado, o objectivo é reflectir e contribuir para a compreensão do "outro estilo". para exemplificar, alguns excertos:

"ela diz-lhe o que está a pensar e ele ouve-a em silêncio. ela pergunta-lhe o que ele está a pensar e ele demora tempo a responder: não sei. frustrada ela desafia: não tens nada no espírito? para rebecca, que está acostumada a expressar os seus pensamentos e opiniões à medida que lhe chegam, nada dizer, significa nada pensar. mas stuart não considera que os pensamentos que lhe passam pela cabeça sejam coisa importante de dizer. não tem o hábito de falar sobre as suas ruminações mentais, por isso, enquanto rebecca fala naturalmente dos seus pensamentos, ele naturalmente descarta os seus à medida que lhe ocorrem. falar deles dar-lhes-ia mais peso e significado do que ele acha que merecem. toda a vida ela verbalizou os seus pensamentos e sentimentos em conversas privadas com pessoas que lhe são próximas; toda a vida ele descartou os seus pensamentos e os manteve para si próprio."

"achamos que sabemos como é o mundo, e olhamos para os outros para reforçarmos essa convicção. quando vemos os outros agirem e pensarem como se o mundo fosse um lugar completamente diferente do que nós habitamos, ficamos abalados. olhamos para as nossas relações mais próximas como fontes de confirmação e sossego. quando os mais próximos de nós reagem aos acontecimentos de forma diferente da nossa, quando eles parecem ver a mesma cena como parte de uma peça diferente, quando eles dizem coisas que nunca imaginaríamos dizer nas mesmas circunstâncias, o chão que pisamos parece tremer e sentimo-nos subitamente inseguros"

"se os adultos aprendem as suas formas de falar enquanto crianças crescendo em mundos separados, então a conversação entre homens e mulheres é uma comunicação intercultural. apesar de cada estilo ser válido nos seus próprios termos, os mal-entendidos surgem porque os estilos são diferentes. uma aproximação intercultural às conversas masculino-femininas torna possível explicar por que razão as insatisfações se justificam sem acusar ninguém de estar errado ou ser doido. aprender acerca das diferenças de estilo não as faz desaparecer, mas pode eliminar a má interpretação e a culpabilização mútuas."

por mim, estou a achar o livro bastante interessante, e dou por mim a sorrir frequentemente, ao reconhecer episódios que se passam comigo ou que observo ao meu redor. um livro interessante e diferente, óptimo para se ler quando o último livro de ficção que se leu nos deixou uma impressão muito forte, como foi o meu caso com "a sombra do vento".

segunda-feira, abril 30, 2007

a sombra do vento


"- E então, o que me vais mostrar hoje que eu ainda nunca vi?
- Várias coisas. De facto, o que te vou mostrar faz parte de uma história. Não me disseste no outro dia que do que gostavas era de ler?
Bea fez que sim, arqueando as sobrancelhas.
- Pois bem, esta é uma história de livros.
- De livros?
- De livros malditos, do homem que os escreveu, de uma personagem que se escapou das páginas de um romance para o queimar, de uma traição e de uma amizade perdida. É uma história de amor, de ódio e dos sonhos que vivem na sombra do vento.
- Falas como a badana de um romance barato, Daniel.
- Deve ser porque trabalho numa livraria e vi demasiados. Mas esta é uma história real. E, como todas as histórias, começa e acaba num cemitério, embora não o género de cemitério que imaginas.
Sorriu como fazem as crianças às quais se promete uma adivinha ou um truque de magia.
- Sou toda ouvidos.
Esgotei o último gole de café e contemplei-a uns instantes em silêncio. Pensei no muito que desejava refugiar-me naquele olhar fugidio que se temia transparente, vazio. Pensei na solidão que me ia assaltar nessa noite quando me despedisse dela, sem mais truques nem histórias com que enganar a sua companhia. Pensei no pouco que tinha para lhe oferecer e no muito que queria receber dela."

melhor do que eu alguma vez poderia fazer, este excerto define o livro de carlos ruiz zafón que ando a ler. devagar, saboreado, não me apetece acabá-lo, lembro-me dele de vez em quando ao longo do dia. há muito tempo que um livro não me "levava" desta maneira. a prosa poética, a eficácia dos diálogos, as encruzilhadas duma história que tem barcelona no pós 2ª guerra mundial como pano de fundo. "uma história inesquecível sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros", como se diz na capa, por debaixo do título. para aguçar o apetite a quem ainda não leu, fica mais um diálogo:

"Riu nervosa.
- Não sei o que me deu. Não te ofendas, mas às vezes uma pessoa sente-se mais à vontade para falar com um estranho do que com as pessoas que conhece. Porque será?
Encolhi os ombros.
- Provavelmente porque um estranho nos vê como somos, e não como quer acreditar que somos.
- Isso também é do teu amigo Carax?
- Não, isto acabo eu de inventar para te impressionar.
- E como me vês tu a mim?
- Como um mistério.
- Esse é o elogio mais estranho que alguma vez me fizeram.
- Não é um elogio. É uma ameaça.
- Porquê?
- Os mistérios é preciso resolvê-los, averiguar o que escondem.
- Se calhar decepcionas-te ao ver o que há lá dentro.
- Se calhar surpreendo-me. E tu também.
- O Tomás não me tinha dito que tivesses tanta lata.
- É que a pouca que tenho a reservo toda para ti.
- Porquê?
Porque me metes medo, pensei."

segunda-feira, abril 23, 2007

dia mundial do livro

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domingo, novembro 26, 2006

audiolivros (a propósito do cod3x 632)


noticiam dezenas de páginas que o codex 632 do josé rodrigues dos santos foi editado recentemente em formato de audiolivro. pergunto: mas afinal para que serve um audiolivro, exceptuando para os invisuais, mas mesmo assim existe o braille e não me acredito que seja esse o público-alvo dos editores. grande parte do gozo de ler e da importância de ler consiste na decifração do código escrito, na activação dos neurónios que vão descodificar aqueles "rabiscos" e transformá-los em ideias, objectos, sentimentos. no levantar dos olhos da página e ficar a matutar, por breves momentos, naquela frase, naquele conceito, naquela situação que estamos a ler. e depois retomar a leitura, ou interromper, marcar a página onde vamos e depositar o livro no seu sítio de descanso temporário. como se faz isto com um audiolivro? ainda por cima com romances, onde apetece reler algumas passagens que mais nos impressionam, apetece retomar um pouco mais atrás do que a página onde se interrompeu, onde por vezes voltamos atrás várias páginas à procura de algum pormenor que se nos escapou na primeira passagem... pergunto novamente: para que serve um audiolivro? vejo, talvez, uma excepção, na poesia. mas mesmo assim...