quarta-feira, maio 30, 2007

o país ao contrário

hoje, dia de greve geral, o país não ficou paralisado, ficou ao contrário, para não dizer na twilight zone. administrações de empresas ameaçando com processos disciplinares os trabalhadores em greve, listas nominais de grevistas no hospital de leiria e na faculdade de ciências de lisboa apesar do parecer da comissão nacional de protecção de dados amplamente divulgado na comunicação social, sabotagem cirúrgica no sistema de comunicações no metro do porto com direito a intervenção da p.j., cavaco relembrando a um governo socialista que a greve é um direito dos trabalhadores, um ministro que diz que não tem nada a ver com as decisões de um dos seus directores gerais, um deputado do c.d.s.-p.p. defendendo os grevistas perante um governo socialista. com os números ninguém se entende, como é costume, mas desta vez nem dá para fazer a média aritmética entre os números do governo e os dos sindicatos. gostei da nova estratégia da c.g.t.p. em não divulgar os números que recolheu, com o argumento de que as pessoas não são números. sempre é mais airoso do que assumir que a greve não teve os efeitos desejados. a sensação que tenho é que houve gente a mentir ao longo de todo o dia. de todos os lados, de todos os quadrantes. se fossem pinóquios, uma verdadeira confusão de narizes.

6 comentários:

marta r disse...

Ficou (mais uma vez) adiado o meu sonho de ver e participar numa verdadeira greve geral. Daquelas mesmo, mesmo à séria!

Anónimo disse...

marta, era a única maneira de parar com este despotismo, mas há muitos factores que o impedem. a economia das famílias, que já está muito apertada, o descrédito crescente dos sindicatos que não há meio de se desvincularem dos partidos políticos, etc, etc. li um post no veertice que dizia que isto com greves já não vai lá, só com guerra total...

astuto disse...

Não acho que a greve tivesse afectado Portugal. O "meu" Portugal, pelo menos, não afectou. Não afectou porque os verdadeiros explorados deste país nunca fizeram greve.

Basta andar numa rua duma qualquer cidade esquecida do país para ver a tristeza nos olhos das pessoas e compreender que elas se estão a cagar (desculpa a expressão) para o patrão, para o estado, para a economia, para o poder de compra... As pessoas simplesmente desistiram de lutar, são humilhadas nos empregos de merda que têm e não se importam! Desistiram. Eu também.

Sabes quantos jovens barcelenses da minha geração (dos 20 aos 30 anos) andam a trabalhar na construção civil em Espanha? Mais de 2 000!! Muitos nunca na vida pensaram ir tralharar para a construção nem tampouco emigrar!! A economia barcelense está em ruínas... Achas que alguém se preocupa? Perde Barcelos, perde Portugal, ganham alguns clãs...

Ao mesmo tempo, o poder de compra, 20 quilómetros ao lado, em Braga, é superior no triplo! As assimetrias dentro das regiões são escandalosas! Braga fica com a maternidade, fica com as urgências, fica com a universidade, fica com o comércio, fica com os investimentos todos da Minho... até o TGV vai fazer um arco e desviar-se da rota para passar por Braga! Isto é um desenvolvimento justo e harmonioso do país? Os 160 000 bracarenses são mais portugueses que os 130 000 barcelenses?

Nem o governo nem a CGTP sabem o que é viver numa terra deprimida economicamente... Depois vêm gozar connosco, uns dizem que os portugueses estão do lado do governo, outros mostram regozijo com a suposta paralização do país, como se isso fosse um objectivo em si mesmo! Que hipocrisia!

Cumprimentos.

Anónimo disse...

astuto, obrigado pelo teu testemunho. são realidades como essa que deviam ser expostas. a tendência para desertificar certas zonas enquanto outras se desenvolvem devia ser travada, mas esta visão economicista (talvez nem isso, é uma visão de tostões, comezinha) do país vai deixar marcas muito profundas. é triste ver uma geração sem fé no futuro.

Maria Romeiras disse...

Em suma, a etiqueta fabulosa "não há pachorra" está bem aplicada por aqui. Pois, pois, vulgarizem armas como a greve e percam ao braço de ferro, curtam a estatística pela positiva ou pela negativa, nada mais que manipulação, tens razão, de todos os lados e mais algum... No dia em que alguém me explicar para quê greves de um dia e sem motivos bem definidos, eu faço.

nelio disse...

maria, vá lá que desta vez não foi à sexta-feira ou encravada entre um feriado e um fim de semana. corremos mesmo o risco da banalização e da descredibilização de um instrumento social tão importante como a greve. estou contigo: quando tiver que ser, que seja a valer.